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Coluna21 de jun. de 2026, 10:40Atualizada em 17 de ago. de 2026, 11:32

A nova era a.IA. e d.IA.: O desenvolvimento de software antes e depois da Inteligência Artificial

O desenvolvimento de software entrou em uma nova fase. Antes da IA, criar aplicações era um processo longo, manual e cheio de retrabalho. Agora, com inteligência artificial aplicada desde a ideação até o go-live, o jogo muda: mais velocidade, mais clareza, menos desperdício e uma nova forma de transformar ideias em soluções reais.

Por Duda Bastos · Fundador do Tech & Talk | CEO-Founder DBAI

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Durante muito tempo, desenvolver software foi quase um ato de resistência.

Antes de uma tela ganhar forma, antes de uma linha de código ir para produção, antes de um cliente abrir o sistema pela primeira vez, existia uma longa travessia: reuniões, atas, planilhas, documentos extensos, fluxos desenhados manualmente, requisitos mal interpretados, retrabalho, testes cansativos e aquela sensação conhecida por todo mundo que já participou de um projeto digital: “será que era isso mesmo que o cliente queria?”

O desenvolvimento de software sempre foi vendido como inovação, mas, por dentro, muitas vezes era um processo pesado, lento e cheio de gargalos.

A grande pergunta é: será que ainda faz sentido desenvolver software como se estivéssemos em 2020?

Talvez estejamos vivendo um novo divisor de águas. Algo parecido com um “antes e depois”. Não no sentido religioso, mas como marco histórico. Antes da IA e depois da IA.

Ou, para provocar um pouco mais: será que o desenvolvimento de software pode ser dividido em A.I.A. e D.I.A.?

Antes da Inteligência Artificial.
Depois da Inteligência Artificial.

O mundo antes da IA

Imagine um escritório de gestão tributária que precisa desenvolver um sistema de gestão de clientes.

Na teoria, o projeto parece simples: cadastrar clientes, organizar empresas, controlar documentos, acompanhar prazos, registrar atendimentos, gerar relatórios e dar mais visibilidade para a operação.

Na prática, o caminho tradicional era bem mais longo.

Primeiro vinha a ideação. Depois, várias reuniões para entender a dor do cliente. Em seguida, o mapeamento dos processos tributários, a documentação das regras de negócio, a criação dos protótipos, a aprovação das telas, o planejamento técnico, a montagem do backlog, o desenvolvimento, as integrações, a migração de dados, os testes manuais, a homologação, o retrabalho, o go-live e, por fim, o treinamento.

Era um processo sequencial, dependente de muitas mãos e extremamente sensível à falha de comunicação.

Uma informação esquecida em uma reunião podia virar uma funcionalidade errada semanas depois.
Uma regra de negócio mal documentada podia gerar retrabalho na homologação.
Uma planilha desorganizada podia atrasar a migração.
Um teste manual mal executado podia deixar um erro chegar ao cliente.

Não era falta de competência. Era o modelo.

O modelo tradicional exigia que pessoas transformassem conversas em documentos, documentos em tarefas, tarefas em código, código em sistema e sistema em operação. Cada transição tinha risco. Cada passagem de bastão podia gerar ruído.

Em um projeto como esse, sem IA no processo, um desenvolvimento completo poderia levar de 28 a 44 semanas, algo entre 7 e 11 meses. O retrabalho poderia representar de 20% a 35% do esforço total.

E aqui vale uma reflexão: quanto do custo de um software, na verdade, não é desenvolvimento, mas desalinhamento?

O gargalo nunca foi só o código

Durante anos, muita gente olhou para o desenvolvimento de software como se o maior problema estivesse no programador.

“Está demorando para codar.”
“O sistema ainda não ficou pronto.”
“O dev não entendeu.”
“A tela não saiu como eu imaginei.”

Mas, na maioria das vezes, o problema começa antes do código.

Começa na ideia mal explicada.
Na reunião sem síntese.
No requisito subjetivo.
Na regra de negócio que só existe na cabeça do cliente.
No processo interno que ninguém documentou.
Na planilha que virou sistema sem antes virar estratégia.

O código é apenas uma etapa visível de uma cadeia muito maior.

Antes da IA, boa parte do esforço estava em organizar o caos. O cliente falava, o analista interpretava, o designer desenhava, o PO priorizava, o desenvolvedor codava, o QA testava e, no fim, todos descobriam juntos o que ficou faltando.

O problema é que essa descoberta acontecia tarde demais.

E quanto mais tarde uma falha aparece, mais caro é corrigir.

O mundo depois da IA

Agora imagine o mesmo projeto, mas com IA presente desde o início.

A reunião com o cliente não vira apenas uma ata. Ela vira resumo estruturado, lista de dores, hipóteses de solução, mapa de requisitos e pontos de atenção.

O processo tributário não precisa ser desenhado do zero em uma folha em branco. A IA ajuda a organizar fluxos, identificar etapas, sugerir campos, montar jornadas, prever exceções e transformar conversas em documentação funcional.

A ideia inicial não fica solta. Ela pode ser rapidamente traduzida em escopo, backlog, histórias de usuário, regras de negócio, protótipos, matriz de permissões e critérios de aceite.

O desenvolvimento também muda. Copilotos de código ajudam na criação de CRUDs, APIs, integrações, validações, componentes de interface, testes e automações. A IA não elimina o desenvolvedor, mas muda a natureza do trabalho dele.

O profissional deixa de ser apenas executor de tarefas técnicas e passa a ser um arquiteto de decisões.

Com IA, o tempo estimado para o mesmo tipo de projeto pode cair para algo entre 13 e 21 semanas, aproximadamente 3 a 5 meses. O ganho de prazo pode chegar a 45% ou 55%, enquanto o retrabalho pode cair para uma faixa entre 8% e 15%.

Não porque a IA faz mágica.

Mas porque ela reduz o intervalo entre pensar, estruturar, validar e executar.

A IA não substitui o desenvolvimento. Ela muda o centro de gravidade.

Existe uma armadilha comum nessa discussão: achar que IA vai substituir todo mundo.

Essa é uma leitura rasa.

A IA não acaba com a necessidade de estratégia, produto, design, arquitetura, negócio e visão. Pelo contrário: ela aumenta o valor de quem sabe fazer boas perguntas e tomar boas decisões.

O que perde valor é o trabalho repetitivo, mecânico e puramente operacional.

O que ganha valor é a capacidade de conectar pontos.

Antes, muito tempo era gasto escrevendo do zero, organizando informação, criando documentação manual, revisando tarefas, montando estruturas básicas e corrigindo erros previsíveis.

Agora, a IA pode assumir parte desse esforço operacional, permitindo que o time humano foque em decisões mais importantes:

  • Qual problema realmente precisa ser resolvido?

  • Qual fluxo gera mais valor para o cliente?

  • Qual funcionalidade deve entrar no MVP?

  • Qual regra de negócio pode virar automação?

  • Qual etapa pode ser simplificada?

  • Qual dado precisa estar visível para tomada de decisão?

  • Qual experiência vai fazer o usuário adotar o sistema?

O novo desenvolvedor não é apenas quem escreve código. É quem entende contexto, estrutura solução e usa a IA como extensão da própria capacidade.

A nova fase: programar sem codar?

Durante muito tempo, “fazer software” parecia algo restrito a quem dominava linguagens, frameworks e bancos de dados.

Mas a IA está abrindo uma nova camada de criação.

Não significa que qualquer pessoa vai construir sistemas complexos sem conhecimento técnico. Isso seria exagero. Mas significa que mais pessoas poderão transformar ideias em protótipos, fluxos, automações, sistemas internos e aplicações reais com muito menos barreira de entrada.

A nova pergunta não é mais apenas:

“Você sabe programar?”

A pergunta passa a ser:

“Você sabe transformar uma ideia em uma solução clara o suficiente para a IA ajudar a construir?”

Essa mudança é profunda.

Porque o gargalo deixa de ser apenas técnico e passa a ser cognitivo. Quem pensa melhor, pergunta melhor. Quem pergunta melhor, orienta melhor a IA. Quem orienta melhor a IA, produz melhor.

Nesse novo mundo, a vantagem competitiva não está só em saber codar. Está em saber pensar produto, entender negócio, validar ideia, simplificar processo e conduzir a tecnologia para um resultado concreto.

O risco de continuar desenvolvendo como antes

O problema é que muitas empresas ainda estão tentando usar IA dentro de processos antigos.

É como colocar motor elétrico em carroça.

A ferramenta mudou, mas o modelo mental continua o mesmo.

Continuam fazendo reuniões longas sem síntese inteligente.
Continuam escrevendo documentos enormes que ninguém lê.
Continuam criando backlog manualmente.
Continuam tratando protótipo como etapa demorada.
Continuam testando tudo de forma repetitiva.
Continuam esperando a homologação para descobrir o óbvio.

A IA não acelera processos ruins automaticamente. Ela pode até evidenciar o quanto eles são ruins.

Se a empresa não repensar o fluxo, a IA vira apenas mais uma ferramenta dentro de uma operação travada.

Por isso, a grande transformação não está apenas em usar ChatGPT, Copilot, agentes, automações ou modelos generativos.

A transformação está em redesenhar o processo.

De fábrica de software para laboratório de soluções

Talvez o termo “fábrica de software” comece a ficar pequeno para essa nova fase.

Fábrica lembra linha de produção, etapas rígidas, divisão pesada de tarefas e entrega em massa.

Mas o desenvolvimento com IA se parece cada vez mais com um laboratório de soluções.

Um ambiente onde ideias são testadas mais rápido.
Protótipos surgem em menos tempo.
Requisitos são refinados com mais precisão.
O código nasce mais assistido.
Os testes ficam mais inteligentes.
A documentação acompanha o projeto.
O treinamento pode ser gerado junto com o produto.
O cliente participa de forma mais visual e menos abstrata.

Nesse novo modelo, o projeto deixa de ser uma aposta longa e passa a ser uma sequência de validações rápidas.

Menos “vamos descobrir no final”.
Mais “vamos testar agora”.

Menos “eu acho que entendi”.
Mais “vamos transformar isso em fluxo, tela, regra e cenário”.

Menos retrabalho tardio.
Mais clareza desde o início.

A IA não elimina o humano. Ela expõe quem só executava.

A IA não tira espaço de quem pensa.
Ela tira espaço de quem apenas repete.

Essa talvez seja uma das verdades mais desconfortáveis dessa nova fase.

O profissional que apenas espera uma tarefa pronta para executar pode sentir a IA como ameaça. Já o profissional que entende o problema, conversa com o cliente, desenha solução, valida hipótese e conecta tecnologia com negócio passa a ter uma alavanca poderosa nas mãos.

A IA amplia a diferença entre quem opera ferramenta e quem constrói visão.

E isso vale para desenvolvedores, designers, analistas, gestores, empreendedores e donos de negócio.

O jogo não é homem contra máquina.

O jogo é homem com máquina contra processos ultrapassados.

O novo marco zero

A história do desenvolvimento de software pode ser contada de muitas formas.

Antes da internet e depois da internet.
Antes do cloud e depois do cloud.
Antes do mobile e depois do mobile.
Antes do SaaS e depois do SaaS.

Agora estamos diante de outro corte histórico:

Antes da IA e depois da IA.

Antes, desenvolver software era mais lento, mais caro e mais dependente de esforço manual.
Depois, o processo começa a ficar mais rápido, mais previsível, mais assistido e mais escalável.

Mas existe uma condição: a IA precisa entrar no processo inteiro, não apenas no código.

Ela precisa estar no discovery, na ideação, na documentação, no protótipo, no backlog, no desenvolvimento, nos testes, na homologação, no suporte e no treinamento.

Quando isso acontece, a IA deixa de ser uma ferramenta isolada e passa a ser uma camada estratégica de produção.

A pergunta que fica

A pergunta não é se a IA vai mudar o desenvolvimento de software.

Ela já mudou.

A pergunta real é:

Você vai continuar desenvolvendo aplicações como se ainda estivesse antes da IA?

Porque o mercado não vai esperar todo mundo se adaptar.

Quem entender essa virada primeiro vai entregar mais rápido, testar mais ideias, errar mais barato, aprender com mais velocidade e transformar projetos em produtos com muito mais eficiência.

O futuro do desenvolvimento não será apenas sobre quem sabe escrever código.

Será sobre quem sabe transformar problemas reais em soluções claras, rápidas e inteligentes.

E talvez esse seja o verdadeiro divisor de águas.

Antes da IA, software era construído com muito esforço manual.

Depois da IA, software passa a ser construído com inteligência ampliada.

A tecnologia continua sendo meio.

Mas a forma de criar mudou para sempre.

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