
5 estratégias para cidades dos EUA domarem o boom de data centers
Em evento do Southern Environmental Law Center, especialistas debateram como zoneamento, licenciamento e cláusulas de benefício comunitário podem dar às prefeituras mais poder de barganha diante da corrida por data centers de IA.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Quando o data center chega mais rápido que a lei
Cidade após cidade nos Estados Unidos vem sendo pega de surpresa por projetos gigantescos de data centers, muitas vezes aprovados sem que o próprio conselho municipal entenda direito o que estava votando. Foi esse o pano de fundo de um painel realizado durante a Climate Week NYC pelo Southern Environmental Law Center — organização americana sem fins lucrativos que atua em litígios e políticas ambientais no sul dos Estados Unidos, região hoje descrita como o maior polo de data centers do país.
No condado de Loudoun, na Virgínia, apelidado de "Data Center Alley", já são mais de 200 instalações — segundo Amanda Garcia, do SELC, comunidades "de bairros urbanos a cidades rurais" estão sentindo o impacto. Em Clarksdale, no Mississippi, comissários de planejamento só descobriram depois que haviam aprovado um data center, por causa da redação obscura do pedido. Para DJ Gerken, presidente do SELC, "uma velocidade dessas funciona como um teste de estresse" para governos locais.
As cinco estratégias discutidas no painel
- Transparência: acordos de confidencialidade entre prefeituras e empresas escondem até informações básicas — consumo de energia e água, geração própria de eletricidade e impacto nas contas dos moradores. Painelistas defendem que isso pare.
- Negociar em posição de força: segundo o analista David Roberts, criador da newsletter Volts, as empresas estão "desesperadas" e perdem "milhões, bilhões de dólares por dia" sem a operação rodando — o que dá às cidades margem para exigir contrapartidas reais.
- Rede compartilhada com energia limpa: zoneamento e licenciamento podem proibir geração a gás dentro do terreno e exigir conexão à rede elétrica comum, abastecida por fontes limpas.
- Benefícios comunitários de verdade: para Abré Conner, da NAACP, o conceito precisa ir além de doações simbólicas.
- Entender o contexto maior: para o ativista Bill McKibben, a resistência aos data centers também é, para muita gente, uma forma de fazer frente à concentração de poder das grandes empresas de tecnologia.
Por que isso interessa a quem mora no Brasil
O país também vive sua própria corrida por data centers puxada pela demanda de inteligência artificial, com grandes projetos anunciados por empresas de tecnologia em várias regiões. As mesmas perguntas feitas nos EUA já aparecem por aqui: quanto de energia e água essas instalações vão consumir, quem paga a conta da infraestrutura elétrica extra e que órgão municipal ou estadual efetivamente fiscaliza o licenciamento. Nos EUA, tramita uma legislação federal (a Data Center Water and Energy Transparency Act) justamente para obrigar a divulgação de consumo de água e energia. Não há, nas fontes consultadas, números equivalentes para o Brasil — mas o roteiro de zoneamento claro, licenciamento transparente e cláusulas de benefício comunitário oferece um checklist que prefeituras brasileiras também podem cobrar antes de aprovar o próximo projeto.