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CiênciaSegurança06 de set. de 2026, 12:41

6G pode transformar a rede em radar e sentir quem não está conectado

Pesquisas para o 6G testam a chamada ISAC, tecnologia que usa o próprio sinal da rede para detectar objetos e pessoas ao redor, mesmo sem celular. A ideia já entrou na pauta de padronização, mas o uso comercial ainda é distante — e reguladores de privacidade já emitiram alertas.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Rede de celular funcionando como radar

Pra escala humana: imagine que a antena de celular perto da sua casa consiga "sentir" sua presença na rua, sua velocidade e até seus gestos, mesmo que seu telefone esteja desligado. É essa a promessa — ainda em fase de pesquisa — de uma tecnologia batizada de ISAC (Integrated Sensing and Communication, ou Comunicação e Sensoriamento Integrados), apontada como uma das apostas para as redes 6G.

Segundo reportagem do Canaltech, a ideia é fazer a própria infraestrutura de telecomunicações identificar a presença, a posição e o movimento de objetos e pessoas dentro da área de cobertura — inclusive quem não está conectado à rede. No Brasil, o Inatel (Instituto Nacional de Telecomunicações) e o Centro de Competência Embrapii em Redes 5G e 6G (xGMobile) estão entre os grupos que pesquisam o tema, sob coordenação de Henry Douglas Rodrigues, gerente executivo de P&D e Inovação da instituição.

O que já está confirmado

A ISAC não é apenas uma ideia isolada: o conceito já está sendo discutido dentro do 3GPP (organismo internacional que define os padrões técnicos usados por operadoras em todo o mundo). Segundo levantamentos técnicos, o Release 19 do 3GPP já trata de requisitos e modelos de canal para sensoriamento, o Release 20 estuda a detecção de drones por antenas, e o Release 21 deve trazer as primeiras especificações normativas do 6G, incluindo a ISAC. A União Internacional de Telecomunicações (ITU) fechou em fevereiro de 2026 um conjunto de requisitos de desempenho que também contempla sensoriamento. O 6G comercial, porém, só é esperado por volta de 2030.

O que ainda é pesquisa e especulação

As aplicações citadas — monitoramento de máquinas industriais, cidades inteligentes e detecção antecipada de veículos em cruzamentos para carros autônomos — seguem em estágio experimental, sem previsão de uso comercial definida. O mesmo vale para o alcance real da tecnologia: estudos acadêmicos sugerem que o sinal de rádio poderia, em tese, atravessar paredes e, combinado com machine learning, inferir padrões como respiração, batimentos cardíacos e gestos de uma pessoa.

O alerta da privacidade

Esse potencial já acendeu um sinal amarelo fora do Brasil. Autoridades de proteção de dados da Alemanha publicaram, em junho de 2026, um parecer alertando que seria difícil obter consentimento de pessoas que apenas estivessem por perto de uma área de sensoriamento, sem qualquer dispositivo conectado. Pesquisadores de institutos europeus, como o projeto PAISES-6G, já discutem mecanismos de proteção, como botões físicos para desligar o sensoriamento e avisos automáticos quando a função estiver ativa nas proximidades — mas nada disso está incorporado aos padrões até o momento.

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