
99 explica como calcula o preço da corrida e escolhe o motorista
Com 248 verificações por pedido e preços recalculados a cada dois minutos, a 99 — hoje controlada pela chinesa Didi Chuxing — detalhou seus algoritmos de precificação e seleção de motoristas, mas sem revelar o peso de cada critério.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Quem nunca pediu uma 99 e viu o preço mudar antes de confirmar a corrida?
Essa sensação de que o valor "sobe na hora" não é impressão sua. A 99 — plataforma de transporte por aplicativo controlada pela chinesa Didi Chuxing desde 2018 — confirmou que usa dezenas de algoritmos simultâneos para calcular tarifas e escolher motoristas, e que esses cálculos de preço podem ser atualizados a cada dois minutos quando há desequilíbrio entre passageiros e motoristas disponíveis.
Como o preço é formado
Segundo o Canaltech, o modelo de precificação da empresa funciona em três camadas. Primeiro, um preço-base soma distância, tempo estimado, tarifa inicial, valor mínimo e até dados demográficos da região. Depois, entra um ajuste regional: as cidades são divididas em zonas hexagonais analisadas separadamente, o que explica por que um usuário pode pagar mais que outro a poucas quadras de distância. Por fim, há a precificação dinâmica, acionada em picos de demanda — um show que termina, chuva reduzindo o número de motociclistas disponíveis, hora do rush.
Esse é exatamente o ponto que mais gera reclamação nas redes: a corrida "deu tempo de pensar e já ficou mais cara". Faz sentido existir reação a oferta e demanda, mas dois minutos é um intervalo curtíssimo para decidir se vale pedir o carro agora ou esperar.
Como o motorista é escolhido
Do lado de quem dirige, a lógica também não é simples proximidade. De acordo com diretores da empresa no 99 Summit, cada pedido passa por 248 verificações em milissegundos — filtros de segurança, prevenção a fraude e critérios específicos de cada modalidade de serviço —, e cerca de 90% das solicitações passam por essas checagens antes de chegar aos motoristas. O ranking de quem recebe a chamada é recalculado a cada dois segundos, considerando distância, direção do veículo, probabilidade de aceitação, histórico de comportamento e até preferência de destino do motorista.
Ou seja: o carro mais próximo pode não ser o escolhido. Para o motorista, isso levanta uma dúvida prática — como saber se está sendo penalizado por recusar corridas no passado?
Quem fiscaliza esse algoritmo?
Aqui está a lacuna que mais incomoda quem cobre pauta de govtech: a 99 não divulgou o peso de cada critério nem qual fator prevalece em caso de conflito entre eles. Não há, nas fontes consultadas, qualquer menção a auditoria do CADE ou de órgãos de defesa do consumidor sobre esses 248 filtros. Se a precificação dinâmica e a seleção de motoristas afetam diretamente o bolso e a renda de milhões de brasileiros, por que a transparência algorítmica ainda depende da boa vontade da empresa em explicar — e não de fiscalização externa?