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Ciência03 de set. de 2026, 10:42

A Terra foi moldada pelo Sol? Estudos da NASA ligam história da estrela ao clima

Dois estudos da NASA investigam se nuvens interestelares antigas e supererupções do Sol jovem ajudaram a definir o clima da Terra e as condições para a vida. Parte é dado observacional, parte é hipótese ainda em teste.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana

Pra escala humana: imagina que a bolha que protege todo o Sistema Solar — a heliosfera, gerada pelo vento solar — encolheu tanto, em pelo menos três momentos nos últimos milhões de anos, que a Terra ficou momentaneamente exposta à poeira e à radiação de fora dela. É essa a cena que dois estudos financiados pela NASA tentam reconstruir, ligando a biografia do Sol à história do clima terrestre.

O que está confirmado: a heliosfera encolheu (e há evidência física disso)

Foto: reprodução/olhardigital.com.br

O primeiro estudo vem do centro SHIELD, liderado por Merav Opher, da Universidade de Boston, e foi publicado em 21 de agosto na revista Annual Review of Astronomy and Astrophysics. Usando simulações computacionais, a equipe reconstruiu a trajetória do Sistema Solar pela galáxia e identificou que ele atravessou nuvens interestelares densas e geladas em três momentos: há aproximadamente 2 a 3 milhões, 6 a 7 milhões e 13 a 14 milhões de anos.

Esse é o pedaço com respaldo observacional: elementos associados a poeira interestelar foram encontrados em núcleos de sedimento no fundo do oceano, em neve da Antártida e em amostras lunares, em camadas que correspondem justamente a esses períodos. Ou seja, não é só simulação — há rastro físico da passagem.

O que é hipótese: o efeito no clima e nas eras do gelo

A parte especulativa é o que isso causou. Os pesquisadores propõem que, durante esses encontros, a heliosfera pode ter encolhido a ponto de deixar a Terra momentaneamente fora dessa bolha protetora, expondo o planeta a radiação cósmica e hidrogênio interestelar. A hipótese é que isso alterou a dinâmica da atmosfera superior e pode ter contribuído para mudanças climáticas de longo prazo, possivelmente incluindo eras do gelo. É uma correlação temporal plausível, não uma causa comprovada.

Foto: reprodução/olhardigital.com.br

O segundo estudo: como o Sol fraco esquentou a Terra primitiva

O outro trabalho, de Vladimir Airapetian, do Centro Goddard da NASA, publicado na Astrophysical Journal Letters, ataca um problema antigo: há 3 bilhões de anos o Sol era cerca de 30% menos luminoso que hoje (70% do brilho atual), o que deveria manter a Terra congelada — só que havia água líquida e vida se formando. É o chamado paradoxo do Sol Jovem e Fraco.

A equipe simulou em laboratório a atmosfera primitiva e bombardeou a mistura com prótons, reproduzindo o efeito de supererupções solares, muito mais frequentes num Sol jovem. O resultado foi a formação de óxido nitroso, gás de efeito estufa cerca de 300 vezes mais potente que o CO₂. Nas simulações, mesmo que só 10% desse óxido nitroso sobrevivesse à radiação ultravioleta do próprio Sol jovem, o aquecimento estimado nas regiões equatoriais chegaria a 5°C — suficiente, na modelagem, para manter água líquida.

O que fica de pé

São dois estudos distintos, com métodos diferentes, que juntos sugerem algo maior: a história do Sol — tanto sua trajetória pela galáxia quanto seu comportamento como estrela jovem — pode ter deixado marcas reais no clima da Terra e até nas condições que permitiram a vida surgir. Mas vale repetir: a poeira interestelar tem rastro físico comprovado; o efeito climático dela ainda é hipótese em teste.

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