
Acordar às 3h da manhã pode ser normal, mostra a ciência do sono
Pesquisas recentes sobre cortisol e um padrão histórico de sono dividido em duas fases sugerem que despertares na madrugada nem sempre indicam um distúrbio do sono.
Por Redação tech & talk · Curadoria assistida por IA, revisão humana
Um padrão antigo, não um problema novo
Acordar por volta das 3h da manhã é uma queixa comum, mas a ciência sugere que esse despertar pode fazer parte de um padrão natural do sono humano, e não necessariamente um sinal de distúrbio.
A base histórica dessa ideia vem do trabalho do historiador Roger Ekirch, da Virginia Tech, que reuniu mais de 2 mil referências em textos médicos, diários e obras literárias mostrando que, antes da iluminação artificial generalizada pela Revolução Industrial, era comum às sociedades pré-industriais dormir em dois blocos: um primeiro sono logo após o anoitecer, um período de vigília de uma a duas horas durante a madrugada, e um segundo sono até a manhã.
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Essa hipótese já havia recebido suporte experimental em 1992, quando o psiquiatra Thomas Wehr, então no National Institute of Mental Health dos EUA, confinou voluntários a quartos escuros por 14 horas diárias durante semanas. Sem luz artificial, quase todos os participantes migraram espontaneamente para um ciclo de sono segmentado, dormindo em duas fases separadas por um intervalo de vigília.
O que o cortisol tem a ver com isso
Foto: reprodução/bristol.ac.uk
Um estudo publicado em janeiro de 2025 na revista Proceedings of the Royal Society B, conduzido por pesquisadores da Universidade de Bristol — Stafford Lightman, Thomas Upton e Marcus Munafò —, trouxe uma peça adicional para o quebra-cabeça. Com 201 participantes saudáveis, de 18 a 68 anos, monitorados por um sistema automatizado de coleta de amostras, o estudo mostrou que o ato de acordar não dispara, por si só, um aumento na liberação de cortisol, contrariando a chamada "resposta de cortisol ao despertar", aceita há décadas.
O que os pesquisadores encontraram foi que o cortisol já vinha subindo gradualmente nas horas anteriores ao despertar, como parte do ritmo circadiano natural do corpo — esteja a pessoa dormindo ou acordada. Isso ajuda a explicar por que despertares na segunda metade da noite, quando os níveis do hormônio já estão em ascensão, tendem a ser mais frequentes: os ciclos de sono duram entre 90 e 110 minutos, e as fases mais leves se concentram justamente nas últimas horas de sono.
Quando é preciso se preocupar
Os próprios cientistas alertam para a grande variabilidade individual, ligada a fatores como duração e horário do sono. Cafeína, álcool e alterações hormonais também contribuem para despertares noturnos. O risco maior, segundo especialistas em sono, não é o despertar em si, mas a ansiedade de encará-lo como anormal, o que pode alimentar um ciclo de insônia.