
ADA completa 35 anos, mas cidades ainda falham com moradores surdos em emergências
Lei americana de 1990 obrigou sinais visuais em alarmes de incêndio, mas especialistas dizem que cumprir o mínimo legal não basta para proteger os 48 milhões de americanos surdos ou com deficiência auditiva em situações de risco.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Sirene não avisa quem não ouve
Antes de 1990, quem era surdo ou tinha deficiência auditiva nos Estados Unidos dependia de sorte para escapar de um incêndio: prestar atenção à expressão facial e à linguagem corporal de quem estava por perto era, muitas vezes, a diferença entre a vida e a morte. Foi só com o Americans with Disabilities Act (ADA), a lei americana de 1990 que exige acessibilidade em espaços e serviços públicos, que alarmes de incêndio passaram a ser obrigados a ter sinal visual, não só sonoro.
Passados 35 anos da lei, o artigo assinado por Jessica Aiello, fundadora e CEO da TCS Interpreting, empresa especializada em interpretação em língua de sinais e legendagem em tempo real, publicado no Smart Cities Dive, argumenta que cumprir o piso legal do ADA não é suficiente. Hoje, 37,5 milhões de adultos americanos têm dificuldade auditiva, e cerca de 48 milhões de pessoas surdas ou com deficiência auditiva enfrentam risco maior de lesão, morte ou perda material justamente em emergências — incêndios, enchentes, alertas de tempo severo.
Da obrigação legal ao desenho pensado para quem precisa
Para a autora, "o desafio é um problema de comunicação, não de capacidade" — ou seja, a solução não está em "consertar" a pessoa surda, mas em redesenhar o sistema de alerta da cidade. O texto defende quatro frentes que vão além do mínimo exigido pelo ADA: compromisso institucional que ultrapasse a simples conformidade legal; cobertura de serviços básicos, como intérpretes de língua de sinais e legendagem em tempo real em toda comunicação de emergência; desenho urbano pensado com a comunidade surda desde o início — o que o artigo chama de "Deaf Urbanism"; e inclusão contínua, com moradores surdos participando do planejamento, não só sendo consultados depois de pronto.
A organização americana National Association of the Deaf também recomenda que sistemas de alerta combinem canais visuais, sonoros e eletrônicos — ligação telefônica, TTY, SMS e e-mail — para não depender de um único formato.
E no Brasil, quem cobre esse serviço?
Nenhuma cidade brasileira tem hoje uma política pública equivalente ao ADA para alertas de emergência acessíveis a pessoas surdas — a Lei Brasileira de Inclusão exige acessibilidade, mas sistemas de defesa civil raramente têm intérprete de Libras ou legendagem embutidos no alerta. Fica a pergunta que vale para qualquer prefeitura, americana ou brasileira: quando a sirene toca, quem garante que todo mundo entendeu o aviso — e quem fiscaliza se esse serviço básico realmente existe?