
ADUs batem recorde em Los Angeles, mas não resolvem crise de moradia
Kitnets nos fundos do quintal já são quase 40% das novas moradias aprovadas no condado de Los Angeles. Estudo da USC mostra que o boom não é páreo para o déficit habitacional da região.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Um recorde que não resolve o problema
Se você mora em uma cidade grande e sonha com aluguel mais barato, preste atenção no que está acontecendo em Los Angeles. Em 2025, mais de 10.200 ADUs (accessory dwelling units — as tais "casas nos fundos" ou kitnets anexas ao imóvel principal) foram concluídas no condado, segundo levantamento do Neighborhood Data for Social Change, projeto do Lusk Center for Real Estate da University of Southern California (USC). O número é recorde histórico e representa 37,5% de toda moradia nova certificada no condado no ano — mais de seis vezes as 1.624 unidades registradas em 2018.
Parece muito. E é. Mas o pesquisador Jared Schachner, da USC Price School of Public Policy, foi direto ao ponto: o crescimento das ADUs "não é suficiente para preencher o déficit em termos do que precisamos regionalmente". Aqui já entra a pergunta que todo cidadão deveria fazer: recorde de quê, exatamente, se o problema segue do mesmo tamanho?
O tamanho do buraco
A resposta está nos números totais. A produção geral de moradias em LA County caiu 4% em 2025 — de 28.498 para 27.293 unidades —, prejudicada em parte pela reconstrução expedita de casas destruídas nos incêndios de Palisades e Eaton. E o condado segue muito atrás da meta estadual da Califórnia: 812 mil novas moradias permitidas até 2029. Desde 2021, menos de 125.400 unidades foram produzidas. Ou seja: as ADUs cresceram, mas o bolo total de moradias novas encolheu. É o tipo de estatística que some quando a notícia é só "recorde de ADUs".
Por que isso interessa a quem não mora em LA
ADUs são a aposta mais barata e rápida de várias cidades americanas para destravar oferta de moradia sem depender de grandes incorporadoras — e não é diferente da lógica por trás de programas de moradia popular ou de flexibilização de zoneamento em cidades brasileiras. A diferença é que, em LA, existe monitoramento público e nominal: um centro de pesquisa universitário acompanha ano a ano quantas unidades saem do papel, quem construiu, com que dinheiro. O condado aprovou US$ 3,8 milhões em financiamento estadual em março para ajudar moradores a construir ADUs, com prioridade para áreas atingidas pelo incêndio Eaton.
A pergunta que fica é a mesma de sempre: quem fiscaliza se as milhares de ADUs aprovadas realmente saem do papel, e quanto custa ao poder público sustentar esse ritmo de subsídio sem tocar no problema estrutural — a meta de 812 mil moradias que segue distante? Recorde é bom indicador de imprensa. Déficit habitacional é o que aparece na conta de aluguel no fim do mês.