
Agência que fiscaliza telecom no Brasil não consegue pagar seu próprio data center
A Anatel acumula R$ 30,76 milhões em contas pendentes do data center em Brasília e já pediu, sem sucesso, que o Tesouro Nacional liberasse recursos. Quem fiscaliza o fiscalizador quando a conta não fecha?
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Quando o fiscal fica sem dinheiro pra pagar a própria conta
Imagina rodar atrasado com o aluguel do servidor que guarda os dados de ligação, internet e reclamação de quem mora no seu bairro. É basicamente a situação da Anatel, a agência reguladora de telecomunicações do Brasil, que está sem caixa para pagar R$ 30,76 milhões de notas fiscais do próprio data center, montado em Brasília.
O contrato foi assinado em dezembro de 2025, custa R$ 44,95 milhões no total e vale até 2030. É ali que ficam os dados de usuários e operadoras — a base técnica que sustenta boa parte da fiscalização que a própria Anatel faz sobre o setor. Ironia pouco sutil: o órgão que cobra prestação de contas de operadora de telefonia não está conseguindo prestar conta da própria infraestrutura.
Foto: reprodução/olhardigital.com.br
De onde vem o aperto
A raiz do problema é um bloqueio orçamentário de R$ 51,83 milhões, decidido pelo governo em maio, que cortou o orçamento discricionário da agência de R$ 275,37 milhões para R$ 223,54 milhões — queda de 19%. O presidente da Anatel, Carlos Baigorri, chegou a pedir à Secretaria do Tesouro Nacional, ligada ao Ministério da Fazenda, a antecipação de R$ 23,3 milhões desde agosto. Não teve resposta. Diante do silêncio, recorreu ao Ministério do Planejamento pedindo os R$ 30 milhões que faltam.
E aqui vale a pergunta que todo cidadão devia fazer: se uma agência que arrecada taxas de fiscalização de operadoras de telecom não consegue sequer prever o próprio fluxo de caixa, quem garante que o resto da máquina pública está em ordem?
Risco real de calote
O próprio Baigorri admitiu, em comunicado, que "as projeções apontam risco de insuficiência de limite financeiro para o pagamento integral dos compromissos previstos, especialmente no último trimestre de 2026". Traduzindo: risco de calote em serviço essencial de infraestrutura digital que sustenta sistemas usados por cidadãos e pelas próprias operadoras.
O Ministério da Fazenda diz que reavalia o bloqueio a cada dois meses, com próxima revisão marcada para 24 de novembro. Enquanto isso, 40 entidades empresariais já entregaram, em 27 de outubro, um manifesto pedindo autonomia financeira para agências reguladoras — justamente para evitar que decisões de caixa do governo central travem a fiscalização de setores inteiros.
Fica a conta que o leitor de qualquer cidade brasileira devia fazer: quanto custou esse imbróglio em capacidade de fiscalização perdida, e quem paga essa fatura no fim das contas? Por ora, ninguém respondeu.