
Agent washing: quando a automação vira "agente de IA" só no rótulo
Empresas estão vendendo chatbots e automações simples como se fossem IA agêntica sofisticada. A Gartner estima que só cerca de 130 dos milhares de fornecedores que alegam ter agentes são, de fato, agentes reais.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
O rótulo bonito na caixa vazia
Imagine comprar um eletrodoméstico chamado de "inteligente" que, na prática, só liga e desliga num horário fixo — nada de sensores, nada de aprendizado, nada de decisão própria. É basicamente isso que está acontecendo com a chamada IA agêntica. Uma coluna do CEO da Lecom, Tiago Amor, publicada no Olhar Digital, batiza o fenômeno de "agent washing": empresas colam a etiqueta "agente de IA" em automações tradicionais, chatbots de regras fixas ou assistentes simples que não têm nada de autônomo. É o equivalente corporativo de vender margarina como se fosse manteiga.
Por que isso importa (e custa caro)
O texto cita um retrato revelador: 30% das organizações apenas exploram soluções agênticas, 38% fazem pilotos, e só 11% de fato colocaram algum agente em produção. Ou seja, a distância entre a demonstração bonita no PowerPoint e o sistema funcionando de verdade no dia a dia é enorme. E investir errado nessa aposta sai caro: aplicar um agente sofisticado — e seu custo de manutenção, dados e governança — onde bastaria uma automação simples é como contratar um consultor caríssimo para trocar uma lâmpada. Pior: um agente mal projetado pode até adicionar etapas ao processo, tornando tudo mais lento, não mais eficiente.
O termômetro certo: complexidade do problema
A coluna traz um critério prático que vale repetir em qualquer reunião de comitê de inovação: processos determinísticos, com regras claras e previsíveis, continuam sendo terreno da automação tradicional — o famoso "se isso, então aquilo". Já cenários que exigem entender contexto, tomar decisões com informação incompleta e integrar múltiplos sistemas são, aí sim, candidatos legítimos a agentes. Tecnologia só gera valor quando há coerência entre o problema, o processo e a solução escolhida — não quando se escolhe a ferramenta pela palavra da moda.
O hype tem números — e a Gartner confirma
Esse não é um alarme isolado. A consultoria Gartner estimou que, entre milhares de fornecedores que afirmam vender IA agêntica, apenas cerca de 130 sustentam essa alegação de fato — o resto seria, em bom português, chatbot travestido de agente. A mesma consultoria prevê que mais de 40% dos projetos de IA agêntica serão cancelados até o fim de 2027, por custos crescentes, valor de negócio pouco claro e controles de risco insuficientes. Nos Estados Unidos, isso já chegou à Justiça: a SEC processou a Presto Automation e o FTC puniu a DoNotPay por prometerem autonomia que a tecnologia não entregava.
A lição por trás do jargão
Como bom professor não cansa de repetir: rótulo não é substância. Antes de comprar (ou vender) um "agente de IA", vale perguntar o óbvio — ele decide algo sozinho, com contexto, ou só segue um roteiro decorado? A resposta separa quem está investindo em inovação real de quem está pagando caro por marketing bem escrito.