tech & talk
IA23 de ago. de 2026, 22:59

Agentes de IA prometem folga, mas tiram o sono de fundadores de startups

Enquanto a promessa é de que a IA trabalhe no piloto automático, empreendedores relatam jornadas de até 18 horas, monitorando agentes que não descansam — e que, por isso, também não deixam seus criadores descansarem.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

Compartilhar

É a promessa mais sedutora da inteligência artificial: contratar um funcionário que nunca dorme, nunca reclama e nunca pede aumento. Só que, na prática, quem não está dormindo é o patrão. Uma reportagem recente mostrou fundadores de startups de tecnologia trocando o sono por telas cheias de agentes de IA trabalhando a noite toda — e a conta, no fim, tem chegado na forma de insônia, ansiedade e jornadas que beiram as 18 horas diárias.

O funcionário que nunca desliga vira o chefe que não descansa

Pense num agente de IA como um estagiário hiperativo que nunca bate ponto. Ele processa tarefas, escreve código, responde clientes — tudo isso enquanto você dorme. O problema é que esse estagiário trava, erra ou fica esperando aprovação, e cada minuto parado custa caro. É esse o dilema de Aditya Sharma, de 27 anos, fundador de uma startup de software para equipes de TI em San Francisco: ele foi dormir às 6h da manhã depois de ficar de olho nos agentes a noite inteira. Segundo ele, "o custo de os agentes ficarem bloqueados por oito horas é alto demais".

Já Peter Pezaris, 56 anos, veterano com quatro saídas bem-sucedidas no currículo e uma aposentadoria adiada, trabalha das 7h30 às 2h da madrugada na quinta startup que fundou. Ele descreve a sensação de comandar agentes que rendem 30 vezes mais rápido que humanos como algo parecido com vício: "é como uma droga", resumiu.

Vigilância 24 horas, até no pulso

Se antes o smartphone já dificultava desconectar do trabalho, agora é o próprio corpo que vira painel de controle. Ajay Kalia, fundador de uma startup em Boston, começa o dia às 5h30 e só para às 22h, monitorando os agentes pelo Apple Watch, que vibra a cada dez minutos pedindo aprovação de tarefas. "Não sei se é saudável estar correndo e olhar para o meu relógio", admitiu.

A cofundadora Abby Grills, 33 anos, à frente de uma plataforma de coleta de dados ao lado de um único sócio, soma cerca de dez horas de trabalho por dia e folga só em parte do fim de semana. "Estou exausta o tempo todo", resumiu.

Dois lados da mesma moeda

Aqui mora a contradição central da IA no mundo do trabalho: a tecnologia que deveria libertar o tempo humano está, na verdade, criando um novo tipo de trabalho — o de supervisionar máquinas que não descansam. Para empresas pequenas, a produtividade multiplicada pode ser a diferença entre sobreviver ou não num mercado competitivo. Mas o preço, pelo visto, ainda está sendo pago em noites maldormidas por quem está do outro lado da tela.

agentes de iastartupssaúde mentalprodutividadetrabalho
Compartilhar