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Ciência29 de out. de 2026, 15:41

Água do mar antártico está mais salgada e pode afetar clima global

Com menos gelo marinho derretendo, uma camada de água crucial perto da Antártida ficou mais salgada, densa e profunda desde 2015 — mudança que pode alterar correntes oceânicas e padrões climáticos bem distantes do polo.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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A mudança que ninguém via de fora

Pra escala humana: imagina um cobertor de água doce, formado por décadas de degelo sazonal, cobrindo uma camada inteira do oceano ao redor da Antártida — e esse cobertor começando a desaparecer bem na frente dos cientistas, sem que ninguém percebesse de cara, porque a mudança acontece embaixo da superfície, fora do alcance dos satélites que medem só o gelo visível.

É isso que um novo estudo publicado na revista científica Nature Climate Change identificou. O trabalho, assinado por pesquisadores do Indian Institute of Science, da University of Melbourne (Austrália) e da University of Southampton (Reino Unido), mostra que a chamada Água Intermediária Antártica (AAIW, na sigla em inglês) — uma camada que se forma ao redor do continente e depois se espalha para o norte, por boa parte do Hemisfério Sul — inverteu uma tendência de décadas.

O que é confirmado

Segundo o estudo, entre 1995 e 2015 essa camada de água era mantida relativamente doce pelo derretimento sazonal do gelo marinho antártico no verão. Mas entre 2016 e 2024, à medida que a extensão do gelo marinho despencou, a entrada de água doce caiu — e a AAIW inverteu o movimento: ficou mais salgada, mais densa e mais profunda. Os autores calcularam um aumento de salinidade de cerca de 0,0048 grama por quilo por década no Oceano Austral como um todo, com variações mais fortes em regiões específicas. Esse é o dado medido, não uma projeção.

O que é hipótese (e por que importa)

A partir daí, o estudo entra no terreno da hipótese bem fundamentada, não do fato consumado. Os pesquisadores argumentam que uma AAIW mais salgada e densa pode alterar a estratificação das camadas do oceano, dificultando o processo que hoje ajuda a reter carbono nas profundezas — o que, em tese, facilitaria a liberação de carbono armazenado para a atmosfera. Outra pesquisa mencionada no mesmo contexto associa o declínio do gelo marinho antártico a um padrão parecido com a fase positiva da Oscilação Decadal do Pacífico, que normalmente envolve águas mais frias no Pacífico Norte ocidental e mais quentes no Pacífico oriental.

Os próprios cientistas frisam que ainda não está estabelecido com precisão o quanto essas mudanças vão se propagar para padrões de tempo distantes, como monções ou furacões no Hemisfério Norte — é uma conexão plausível, baseada em como o oceano profundo historicamente influencia a circulação atmosférica global, mas que exige mais observação para ser confirmada.

O ponto prático é que o Oceano Austral funciona como uma espécie de motor de redistribuição de calor e carbono pro planeta inteiro. Se esse motor está mudando de marcha — e os dados de 2016 a 2024 indicam que sim —, o efeito cascata, mesmo que ainda incerto em magnitude, não fica restrito à vizinhança do polo sul.

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