
Água e ar fazem o centro de massa da Terra se mover; NASA mede o fenômeno
Pesquisadores da NASA usam rastreamento ultrapreciso por satélites para medir como o deslocamento sazonal de água e ar altera, em milímetros, o centro de massa do planeta. A técnica reduziu pela metade a incerteza sobre esse movimento em relação a estimativas de oito anos atrás.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: a Terra 'balança' menos que a espessura de uma moeda
Para efeito de comparação, imagina segurar uma moeda entre os dedos: sua espessura fica perto de 1 a 2 milímetros. Pois é mais ou menos nessa escala minúscula — poucos milímetros — que o centro de massa da Terra se desloca ao longo do ano, empurrado pelo peso da água e do ar que migram entre os hemisférios. O fenômeno é real e mensurável, mas está longe de qualquer coisa perceptível na vida cotidiana: é geodésia de precisão, não terremoto nem mudança de eixo.
O que está confirmado: água e ar puxam o planeta de leve
Segundo o Jet Propulsion Laboratory (JPL), braço de pesquisa espacial da NASA, o centro de massa da Terra — ponto de equilíbrio de toda a massa do planeta — não é fixo. Ele se move conforme três fatores mudam de posição ao longo das estações: os oceanos, a atmosfera e a água continental (gelo, neve, rios, lagos, umidade do solo e água subterrânea).
Exemplos citados pelo JPL: em março, o acúmulo de neve no Hemisfério Norte desloca o centro de massa cerca de 3 milímetros em direção ao Polo Norte. Em abril, as chuvas que despejam cerca de 2.400 gigatoneladas de água na bacia amazônica puxam esse ponto por volta de 2,2 milímetros na direção da América do Sul. Em novembro, as monções asiáticas somam outras 600 gigatoneladas de água que também entram nessa equação.
Como a NASA enxerga um deslocamento tão pequeno
A técnica combina rastreamento a laser dos satélites LAGEOS 1 e 2 — esferas de 408 quilos cada, lançadas em 1976 e 1992 e acompanhadas por estações terrestres em mais de 20 países — com dados de GPS e de órbitas de outros satélites de baixa altitude. O time, liderado pelo geocientista Donald Argus, do JPL, também precisou entrar com a deformação que o próprio peso da água e do gelo provoca na crosta terrestre, já que o solo cede um pouco sob esse peso sazonal.
O que mudou: menos incerteza, não um novo fenômeno
Aqui vale separar bem as coisas. O deslocamento do centro de massa em si não é novidade — já era conhecido. O que a nova técnica trouxe foi mais precisão na medição: as estimativas anteriores, feitas entre 2017 e 2023, tinham uma diferença de cerca de 7 milímetros entre si. Com o método refinado, essa margem de erro caiu para perto da metade do que se calculava, segundo Argus.
Felix Landerer, coautor do estudo no JPL, reforça por que esse ajuste fino importa: sistemas de posicionamento de altíssima precisão — usados em navegação, geodesia e até para calibrar outros satélites, como os da missão GRACE-FO — dependem de saber exatamente onde está esse ponto de referência. Não é hipótese: é o tipo de ajuste que sustenta, de forma silenciosa, tecnologias que já usamos todo dia sem perceber.