
Airbnb aposta US$ 250 milhões para destravar moradia multifamiliar nos EUA
A plataforma de aluguel por temporada lança acelerador de habitação com financiamento de 'última milha' para projetos parados, começando por Austin, no Texas.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que importa
US$ 250 milhões. É o valor que o Airbnb está colocando na mesa para destravar projetos de moradia multifamiliar parados nos Estados Unidos, num movimento que a empresa diz ser capaz de puxar mais de US$ 5 bilhões em investimento total na próxima década. O anúncio foi feito nesta segunda-feira (14) pelo CEO Brian Chesky, na biblioteca central de Austin, no Texas — cidade escolhida para receber o primeiro aporte do programa batizado de Housing Accelerator.
Como funciona o financiamento
A lógica é de "último dólar": o Airbnb entra com o capital que falta para viabilizar empreendimentos que já têm licenças e boa parte da estrutura aprovada, mas travaram por falta de funding. Incorporadoras americanas podem se candidatar com projetos multifamiliares de pelo menos 100 unidades, e a empresa afirma que vai operar com retornos abaixo do mercado — ou seja, não é uma jogada para maximizar lucro direto.
O primeiro cheque saiu do papel: US$ 6,4 milhões para destravar a construção de 201 unidades de habitação popular dentro do projeto de redesenvolvimento St. John, uma parceria público-privada que estava parada havia anos. A prefeita de Austin, na figura do prefeito Kirk Watson, e o vereador José "Chito" Vela elogiaram publicamente a iniciativa como exemplo de cooperação entre setor privado e poder público.
Por que o Airbnb, e por que agora
O movimento não é filantropia pura. Cidades americanas vêm pressionando plataformas de aluguel por temporada por seu suposto papel na crise de moradia, com regulações mais duras em várias praças — Austin tem cerca de 14.400 anúncios ativos na plataforma. Ao financiar habitação e apoiar políticas pró-moradia (zoneamento, licenciamento, reforma de códigos de obra), o Airbnb tenta reposicionar a narrativa: a empresa fez questão de afirmar que os investimentos não têm relação com aumentar o número de anúncios na plataforma.
Quem ganha e quem perde
Ganham incorporadoras com projetos travados por falta de capital e cidades como Austin, que destravam moradia sem gastar recursos públicos adicionais. Ganha também o Airbnb em capital político, num momento de escrutínio regulatório crescente sobre aluguéis de curto prazo em grandes centros urbanos americanos. Quem perde, por ora, é qualquer leitura cínica de que a empresa está infinitamente alheia à crise habitacional que ajuda a intensificar — o desafio será ver se o programa escala para além da vitrine texana.