tech & talk
IASmart Cities19 de set. de 2026, 11:03

Al Gore está tranquilo com data centers de IA — mas alerta para outro perigo

Em entrevista à TechCrunch, o ex-vice-presidente americano relativiza as emissões dos data centers de IA e diz temer mais os próprios alertas dos executivos do setor sobre para onde a tecnologia está indo.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

Compartilhar

Um ambientalista de carteirinha diz para respirar fundo

Se tem uma pessoa que a gente esperava ver batendo o pé contra data centers de IA é Al Gore, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos que virou sinônimo de luta climática desde o documentário "Uma Verdade Inconveniente". Pois é aí que mora a surpresa: em entrevista à TechCrunch publicada nesta semana, ao lado de Lila Preston, diretora da Generation Investment Management (gestora de investimentos sustentáveis cofundada por Gore), ele disse estar relativamente calmo com a onda de data centers de IA se espalhando pelos Estados Unidos.

É como comparar o vizinho que liga o ar-condicionado o dia inteiro com a fábrica que despeja fumaça na esquina: dá para incomodar, mas a escala é outra. Gore foi direto: "se você olhar as emissões de todos os data centers de IA somados, é só uma fração das emissões dos aterros sanitários descobertos no mundo". Ele lembrou ainda que o ar-condicionado consome mais eletricidade por ano na União Europeia do que todos os data centers da região somados.

O que tira o sono dele, então

Aqui entra o verdadeiro alerta de Gore, e é onde a entrevista vira notícia. Ele disse se preocupar mais com os próprios avisos que vêm de dentro da indústria de IA sobre os riscos da tecnologia. Diferentemente de Donald Trump e do CEO da Nvidia, Jensen Huang, que trataram como exagero os alertas de Dario Amodei (CEO da Anthropic, empresa rival da OpenAI focada em segurança de IA), Sam Altman e Elon Musk, Gore fez questão de validar essas vozes: "eu acho que Dario Amodei é muito sincero, e acho que Sam Altman e Elon Musk foram sinceros" ao soarem o alarme.

Segundo ele, parte da rejeição bipartidária crescente aos data centers nos EUA tem menos a ver com chaminé e mais com medo de desemprego — as comunidades sentem o canteiro de obras erguendo torres de servidores e temem que o emprego que sobra, no fim das contas, seja o delas.

Dois lados, uma mesma conta

Para equilibrar o otimismo, os números que Gore e Preston trouxeram animam: o investimento global em energia limpa já é cerca do dobro do investimento em combustíveis fósseis, 86% da nova capacidade de geração de energia instalada em 2025 veio de fontes renováveis — e nos Estados Unidos esse índice chega a 91%. Ainda assim, ele criticou o uso crescente de turbinas a metano para alimentar data centers, defendendo que as empresas do setor migrem para fontes renováveis de verdade.

A leitura de Gore, portanto, não é "pode ficar tranquilo": é que o barulho em torno de emissões pode estar mirando o alvo errado, enquanto o alerta que realmente importa — sobre o comportamento da própria IA — segue sendo tratado como exagero por quem deveria estar prestando atenção.

al goredata centersenergia limpainteligência artificialemissões
Compartilhar