
Amazon alerta: bloquear data center de IA pode "custar gerações" aos EUA
Em blog de mais de 3 mil palavras, o CEO da AWS diz que moratórias locais contra data centers ameaçam a liderança dos EUA em IA. Mas quem paga a conta de energia, água e ruído é a vizinhança.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Um alerta e um cheque de US$ 1 bilhão
O CEO da AWS (a divisão de computação em nuvem da Amazon), Matt Garman, publicou um texto de mais de 3.000 palavras no blog da empresa alertando que bloquear a construção de data centers de IA pode causar "dano irreparável" à economia e à segurança nacional dos Estados Unidos, segundo reportagem do The Verge. No mesmo pacote, a Amazon anunciou que vai investir mais de US$ 1 bilhão em cinco anos nas comunidades onde opera esses centros, segundo o GeekWire.
Garman escreveu que há "mais de 100 moratórias de data centers sendo consideradas em todo o país" e que, se essas medidas forem aprovadas, "os EUA estariam escrevendo seu próprio bilhete perdedor nessa corrida, e as consequências durariam gerações". Ele também afirmou que a oposição local é alimentada por "desinformação e mentiras descaradas", chegando a sugerir que outros países estariam espalhando informações falsas sobre data centers nos EUA para atrasar as construções.
Quem mora do lado de fora discorda
Aqui é onde a história muda de ângulo. Enquanto o executivo fala em segurança nacional, quem vive perto desses galpões gigantes de servidores conta outra versão. Em Loudoun County, na Virgínia — hoje com cerca de 175 data centers e conhecida como "Data Center Alley" —, moradores reclamam de um zumbido constante 24 horas por dia vindo dos sistemas de refrigeração e de fumaça de geradores a diesel que, segundo relatos, irritam a garganta e tiram o sono da vizinhança.
Na Geórgia, moradores relataram torneiras secas depois da instalação de um data center da Meta na região, e um relatório recente aponta risco de déficit hídrico no condado até 2030. Não é à toa que o estado discute o projeto de lei HB 1012, que suspenderia novos licenciamentos de data centers até março de 2027. A Virgínia também debate regras parecidas, embora ainda não tenha aprovado uma moratória estadual.
Quem fiscaliza e quem paga a conta?
Essa é a pergunta que falta no blog de Garman: quem fiscaliza o consumo de água e energia desses complexos, e quem garante que a conta de luz do vizinho não suba para subsidiar a infraestrutura de IA das big techs? Segundo levantamento do Good Jobs First, ao menos 20 estados americanos já aprovaram moratórias ou restrições à construção de data centers, com outros sete avançando em legislações semelhantes — justamente pela pressão de moradores sobre custo de energia, uso de água e ruído.
Diante da repercussão negativa, a própria Amazon anunciou medidas de transparência: prometeu parar de usar acordos de confidencialidade (NDAs) com órgãos públicos sobre projetos de data centers, instalar geradores reserva com menos emissão, publicar anualmente seus números de consumo de energia e água, e pagar o suficiente pela energia para evitar repasses à conta de luz da população local.
Se isso vai se traduzir em menos ruído e torneira funcionando em cidades como as de Loudoun County ou da Geórgia, só o acompanhamento das próprias comunidades — e não o blog de um CEO — vai dizer.
Atualização (03/10, 21:50): A Amazon respondeu à onda de desconfiança sobre data centers de inteligência artificial nos Estados Unidos. Matt Garman, CEO da Amazon Web Services (AWS), afirmou em 3 de outubro de 2026 que a empresa deixou de usar acordos de confidencialidade (NDAs) em suas negociações com agências governamentais para aprovação de novos data centers. A mudança responde a uma investigação do deputado democrata Jamie Raskin sobre acordos secretos entre empresas de tecnologia e governos locais.
Além do fim dos NDAs, a Amazon anunciou que vai instalar geradores de backup com emissões menores nos novos sites, publicar anualmente seus dados de consumo de energia e água, e pagar o suficiente pela energia usada para evitar que a conta de luz suba para a população local. A empresa também prometeu investir mais de US$ 1 bilhão em cinco anos nas comunidades onde opera data centers.
O contexto é a escalada da oposição a data centers de IA nos EUA: Garman citou mais de 100 moratórias em consideração no país, incluindo uma de um ano aprovada em Nova York em 2026. O executivo da AWS atribuiu parte da resistência local a "desinformação e mentiras" — argumento que reforça a própria declaração anterior da Amazon sobre o risco de bloquear data centers "custar gerações" à liderança americana em IA.