
Amazon mira 2040 para zerar carbono, mas nem ela sabe como chegar lá
A gigante admite que não tem o caminho traçado para o net-zero em 2040 enquanto suas emissões sobem com o boom de data centers de IA. Se a maior compradora de energia limpa do mundo está perdida, quem vai liderar a descarbonização?
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O número que importa: 2040
A Amazon prometeu zerar suas emissões líquidas de carbono até 2040 — dez anos antes do prazo do Acordo de Paris. O problema é que a própria empresa admite não saber como chegar lá. Kara Hurst, diretora de sustentabilidade da companhia, reconheceu publicamente que a Amazon ainda não tem o caminho traçado para cumprir a meta, mesmo dizendo se manter "confiante e otimista" com a visão de longo prazo.
A confissão pesa porque vem de quem tem escala para bancar a transição: com receita anual de US$ 717 bilhões (crescimento de 12%) — comparável ao PIB da Irlanda — e um portfólio de 42 gigawatts em energia limpa, a Amazon é uma das maiores compradoras de energia renovável do planeta. Se o dinheiro e o poder de compra não bastam, a pergunta que fica é: quem mais teria condição de resolver isso?
A conta não fecha com a IA
Os números recentes mostram o tamanho do desvio de rota. As emissões absolutas da Amazon subiram 16% em 2025, chegando a 80,9 milhões de toneladas métricas de CO2 equivalente, com as emissões indiretas de compra de eletricidade saltando 34% — reflexo direto do consumo de energia em data centers, eletrificação da frota de entregas e prédios. A própria empresa credita o salto à corrida por infraestrutura de IA.
O símbolo dessa tensão é uma usina a gás natural planejada para alimentar data centers, com 7,65 gigawatts de capacidade e 35 turbinas, capaz de emitir até 33 milhões de toneladas de CO2 por ano — o que a tornaria a maior fonte única de poluição por carbono dos Estados Unidos. Um projeto de data center no Texas, com usina própria, deve travar emissões fósseis por até 30 a 50 anos de operação.
Quem ganha, quem perde
Nessa equação, fornecedores de energia limpa e gás natural saem ganhando com contratos bilionários da Amazon, seja qual for a fonte. Acionistas, por ora, também não têm motivo para reclamar: a receita segue crescendo e a meta climática permanece discurso, sem prazo de prestação de contas rígido. Quem perde é o meio ambiente — e a credibilidade do compromisso corporativo com o clima, num momento em que a intensidade de carbono da empresa voltou a subir em 2025 na comparação com 2024, ainda que abaixo do pico de 2022.
A Amazon reconhece que "não pode fazer isso sozinha", dependendo de fornecedores em múltiplos setores para descarbonizar a cadeia. Mas se a maior compradora de energia limpa do mundo, com centenas de bilhões em receita, ainda não sabe como eliminar suas próprias emissões, o mercado tem motivos de sobra para desconfiar das metas de 2040 anunciadas por empresas menores e com menos recursos.