
American Airlines paga R$ 530 milhões por 8% da Azul com aval restrito do Cade
O Cade aprovou a entrada da American Airlines no capital da Azul, mas proibiu a aérea americana de discutir preços, voos e capacidade nas rotas Brasil-EUA. United Airlines já tem fatia equivalente.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
R$ 530 milhões pela fatia, mas com coleira regulatória
A American Airlines desembolsou US$ 100 milhões — cerca de R$ 530 milhões na cotação atual — para ficar com 8% do capital da Azul. O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) aprovou a operação nesta quarta-feira (7), mas impôs um Acordo em Controle de Concentrações (ACC) que tira da aérea americana qualquer poder de interferir em decisões sensíveis.
O que o Cade proibiu
Na prática, representantes da American ficam impedidos de participar de discussões sobre preços, oferta de voos, capacidade ou estratégias comerciais nas rotas entre Brasil e Estados Unidos. A Azul também terá de documentar formalmente todos os temas concorrencialmente sensíveis tratados nas reuniões de conselho. Segundo a conselheira Camila Cabral Pires Alves, as salvaguardas são mais robustas, verificáveis e diretamente exigíveis do que em acordos anteriores do tipo.
Por que o aperto: concentração nas rotas-chave
O motivo da cautela está nos números de market share. Nas rotas São Paulo–Miami, American, United e Azul somam entre 50% e 70% de participação combinada. Em São Paulo–Orlando, a fatia conjunta das três chega a 30%-50%. É concentração suficiente para acender o sinal amarelo de qualquer autoridade antitruste.
Quem ganha: Azul capitalizada, duas aéreas americanas na mesa
O investimento é parte da reestruturação financeira da Azul, que saiu do Chapter 11 nos EUA em fevereiro. A United Airlines já havia elevado sua participação de 2,02% para cerca de 8% no mesmo mês, também com aporte de US$ 100 milhões aprovado pelo tribunal do Cade. Juntas, American e United somam 16% do capital da Azul — e ganham codeshare, integração de programas de fidelidade e acesso a salas VIP.
Quem perde: Abra bate na porta do Cade
A holding Abra, controladora de Gol e Avianca, contestou a entrada da American na Azul, alegando preocupações com direitos de governança e acesso a informações estratégicas de uma concorrente direta. O argumento não foi suficiente para travar o negócio, mas sinaliza que a disputa pelo mercado aéreo Brasil-EUA está longe de esfriar.