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Ciência01 de nov. de 2026, 22:03

Anã branca com dois discos de detritos pode mostrar futuro do Sistema Solar

Astrônomos encontraram, ao redor da anã branca J1328-1450, dois discos de detritos separados por uma lacuna estável. Para os cientistas, a estrutura pode ter sido esculpida por dois corpos planetários que sobreviveram à morte da estrela.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana: imagine o nosso Sol, bilhões de anos no futuro, já sem combustível, reduzido a um caroço denso do tamanho da Terra, chamado de anã branca. Em volta dele, não sobrou um planeta inteiro — só anéis de poeira e gás, os restos do que um dia foram mundos. É mais ou menos essa cena que astrônomos acabam de flagrar ao redor de uma estrela morta de verdade, e ela traz uma novidade que ninguém tinha visto antes.

O que foi observado

A equipe, liderada por Nicola Gentile Fusillo (Università degli Studi di Trieste, Itália), com participação de Felipe Lagos-Vilches (University of Warwick, Reino Unido, e Universidad Técnica Federico Santa María, Chile), usou o instrumento X-shooter, instalado no Very Large Telescope (VLT) do Observatório Europeu do Sul (ESO), no deserto do Atacama, para observar a anã branca J1328−1450.

O resultado, publicado na revista Nature Astronomy, mostrou algo inédito: em vez de um único disco de detritos — o padrão já conhecido em outras estrelas mortas —, essa anã branca tem dois anéis concêntricos de gás, separados por uma lacuna estável entre eles. É confirmado que os dois discos têm assinaturas químicas diferentes: ambos contêm cálcio, oxigênio, magnésio e ferro, mas o disco interno é rico em magnésio, enquanto o externo perdeu boa parte desse elemento.

O que é hipótese dos cientistas

A existência da lacuna entre os discos ainda não tem explicação definitiva, mas a hipótese mais aceita pela equipe é que dois corpos planetários distintos sobreviveram à destruição da estrela e seguem esculpindo cada um dos anéis. O corpo interno teria dimensões de um asteroide típico, de poucos quilômetros de diâmetro; o externo poderia chegar ao tamanho de Plutão ou da Lua. Também é hipótese que o material dos dois discos venha de composições planetárias diferentes — ou de regiões distintas de um mesmo corpo despedaçado.

Segundo Gentile Fusillo, autor principal do estudo, este é "o primeiro exemplo de um sistema complexo com um duplo disco de detritos e, potencialmente, dois planetesimais sobreviventes".

Por que isso interessa ao nosso Sistema Solar

Quando o Sol chegar ao fim de sua vida, ele deve se expandir, provavelmente destruindo planetas próximos, antes de encolher e se tornar uma anã branca — o mesmo tipo de objeto estudado agora. Observar como corpos planetários conseguem sobreviver, mesmo fragmentados, a esse processo de morte estelar dá aos cientistas uma pista observacional real do que pode restar do nosso próprio sistema planetário num futuro extremamente distante. Por ora, isso ainda é inferência baseada num único sistema recém-descoberto — não uma previsão fechada sobre o destino da Terra ou dos outros planetas.

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