
Anel da Oura mede sono com 53% de acerto, aponta processo nos EUA
Ação coletiva movida na Califórnia acusa a Oura de vender precisão de 95% na medição de estágios do sono quando um estudo independente encontrou apenas 53,18% de acerto. A empresa, avaliada em US$ 11 bilhões, não comentou o caso.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
A Oura, fabricante do anel inteligente que promete "precisão inigualável" no monitoramento do sono, virou alvo de uma ação coletiva que expõe uma discrepância e tanto: a empresa anunciava 95% de precisão na identificação de estágios do sono, mas um estudo independente citado no processo mediu apenas 53,18% de acerto — pouco acima de jogar uma moeda para o alto.
O que diz o processo
A ação foi movida em 20 de agosto pela consumidora californiana Madison Surber, representada pela Clarkson Law Firm, na Justiça Federal do Distrito Norte da Califórnia, em San Francisco (processo 3:26-cv-08686). Os réus são a Oura Inc. e sua controladora finlandesa, Oura Health Oy.
O argumento central é técnico: para diferenciar sono profundo, leve e REM, seria preciso captar atividade cerebral e ocular — o que exige eletrodos no couro cabeludo e sensores nos olhos, como em laboratório clínico. Um anel no dedo, diz a petição, não tem como fazer isso. O que a Oura entrega são estimativas de IA com chance de acerto equivalente a cara ou coroa.
O processo contesta duas alegações de marketing: os 79% de concordância com polissonografia divulgados em 2022, e os 95% de precisão de estágios estampados hoje na página do Ring 5, modelo mais recente, vendido a partir de US$ 300. As acusações incluem fraude por má representação, enriquecimento injusto e violações às leis californianas de concorrência desleal, publicidade enganosa e defesa do consumidor. O pedido é por indenização, restituição aos compradores e fim da publicidade enganosa. Procurada pela TechCrunch, a Oura não respondeu até a publicação da reportagem.
Quem ganha, quem perde
Para os consumidores, o processo formaliza uma queixa recorrente: usuários relatam nas redes sociais dormir mal e, ainda assim, receber do app a mensagem de que o sono foi "ideal" — contradição que mina a confiança no produto que sustenta boa parte do apelo da marca.
Para a Oura, o timing é ruim. A empresa vinha de expansão acelerada: valuation de cerca de US$ 11 bilhões em 2025, mais de 5,5 milhões de anéis vendidos ao longo da história e faturamento acima de US$ 1 bilhão, com 3 milhões de unidades só no ano passado. Uma condenação ou acordo bilionário — ou mesmo o desgaste de reputação — pode esfriar esse ritmo justamente quando a categoria de wearables de saúde disputa espaço com Apple, Samsung e rivais menores, como SleepOn e Circul, que vendem sensores parecidos mas evitam prometer precisão de estágios de sono.
Para os concorrentes, é oportunidade: qualquer racha na credibilidade da líder do segmento de anéis inteligentes abre espaço para quem for mais comedido nas promessas — ou consiga provar, com dados abertos, que faz melhor o que a Oura diz fazer.