
ANPD ordena suspensão das lives do Discord no Brasil
Autoridade Nacional de Proteção de Dados determinou a suspensão do recurso Go Live em até três dias úteis, citando falhas de moderação que expuseram crianças e adolescentes a violência, automutilação e indução ao suicídio.
Por Denise Sampaio · Repórter de Segurança
O que aconteceu
A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou, nesta quarta-feira (12), que o Discord suspenda as transmissões ao vivo (o recurso Go Live) em todo o território brasileiro. A medida preventiva dá à empresa um prazo de três dias úteis para cumprir a ordem.
Segundo a ANPD, o Discord falhou em adotar ferramentas de moderação capazes de prevenir crimes e violações graves contra crianças e adolescentes, como indução, incitação ou auxílio à violência, à automutilação e ao suicídio. A decisão se apoia no ECA Digital, que prevê multa de até R$ 50 milhões por infração em caso de descumprimento.
Foto: reprodução/cnnbrasil.com.br
De acordo com a agência, a arquitetura do recurso de lives impede a análise de conteúdo em tempo real, deixando a moderação dependente de sistemas automatizados falhos e de denúncias de usuários — um problema agravado por mudanças técnicas feitas pela plataforma em março, que teriam tornado a funcionalidade "menos protetiva". Dados da SaferNet Brasil citados no processo apontam alta de 54% nas denúncias envolvendo o Discord entre janeiro e julho de 2026 na comparação com o mesmo período de 2025.
Na segunda-feira (10), o Discord apresentou à ANPD uma proposta de medidas para reforçar a proteção de usuários, mas a autarquia considerou a resposta insuficiente para reduzir os riscos imediatos e optou pela suspensão cautelar. A plataforma tem ainda dez dias úteis para recorrer à Superintendência de Fiscalização (SFI) da ANPD.
Quem é afetado
A suspensão atinge especificamente o Go Live, usado para compartilhamento de tela e transmissão de vídeo em tempo real dentro de servidores do Discord. Troca de mensagens de texto e chamadas de voz seguem funcionando normalmente. A medida vale para todos os usuários no Brasil, sem distinção de idade, até que a empresa comprove a implementação de mecanismos de segurança considerados adequados pela ANPD.
O que fazer agora
- Usuários que dependem de lives em servidores do Discord (grupos de jogos, estudo ou trabalho) devem buscar alternativas temporárias, como chamadas de voz com compartilhamento de tela por outras ferramentas.
- Pais e responsáveis podem aproveitar o momento para revisar as configurações de privacidade e os servidores que crianças e adolescentes frequentam na plataforma.
- Administradores de comunidades devem ficar atentos a comunicados oficiais do Discord sobre prazos e eventual reativação gradual do recurso.
- Casos de violência, automutilação ou aliciamento contra menores devem ser denunciados à SaferNet Brasil ou às autoridades policiais, além do canal de denúncias do próprio Discord.
Atualização (14/08, 21:55): O Ministério da Justiça identificou pelo menos 7 operações policiais desde 2023 envolvendo o Discord, enquanto a ANPD alerta que a criptografia de ponta a ponta da plataforma dificulta o combate a abusos contra menores em transmissões ao vivo.