
Anthropic promete US$ 518 bi em cloud e tensiona quem deveria ser sócio
Prospecto vazado do IPO de novembro mostra Anthropic espremida entre AWS, Google e Microsoft, que são ao mesmo tempo fornecedoras de compute, investidoras e concorrentes diretas em IA.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
US$ 518 bilhões é o número que trava a conversa
É esse o valor que a Anthropic, dona do chatbot Claude, comprometeu em contratos de nuvem e infraestrutura para os próximos anos, segundo o prospecto de abertura de capital (S-1) vazado ao Wall Street Journal. A conta se divide, grosso modo, em cerca de US$ 111 bilhões com o Google Cloud, mais de US$ 100 bilhões com a AWS (a nuvem da Amazon) e perto de US$ 30 bilhões com o Microsoft Azure. O detalhe que importa: boa parte desse dinheiro é devido independentemente de a Anthropic usar ou não toda a capacidade contratada.
Fornecedor, investidor e concorrente na mesma mesa
O problema de fundo, segundo o documento, é que AWS, Google Cloud e Microsoft Azure — os três grandes provedores de computação em nuvem que também mantêm participações acionárias na Anthropic — cada vez mais tratam a empresa como rival, não como cliente. Faz sentido: Amazon e Google vendem chips e capacidade de datacenter à Anthropic, mas também desenvolvem seus próprios modelos de IA concorrentes do Claude. A Amazon detém algo em torno de 21% da Anthropic; o Google, cerca de 14% a 15%, com teto contratual nesse patamar; a Microsoft entrou depois, com um aporte de US$ 5 bilhões. É sócio, fornecedor e adversário ao mesmo tempo — uma equação que fica mais apertada quando a capacidade de GPU é escassa e cada hiperescala prioriza primeiro os próprios projetos de IA.
Quem paga o pedágio da distribuição
A dependência vai além do compute. Em 2025, 47% das vendas da Anthropic passaram pelos marketplaces da AWS e do Google — até US$ 2,16 bilhões —, ante 32% em 2024 e apenas 11% em 2023. Por esse canal, a empresa pagou cerca de US$ 351 milhões em taxas de distribuição às próprias plataformas que também competem com ela. Diante da capacidade limitada dos hiperescalers, a Anthropic já está alugando datacenters próprios e fechando acordos com operadores terceirizados menores — movimento que reduz a dependência dos três grandes, mas traz um risco que o prospecto reconhece: esses operadores têm histórico operacional mais curto e podem ser menos confiáveis em escala.
O pano de fundo é o IPO
Tudo isso emerge justamente quando a Anthropic corre para abrir capital. A receita do terceiro trimestre chegou a US$ 16,8 bilhões, alta de 45% sobre o trimestre anterior, número usado para sustentar a mira de uma avaliação de até US$ 2 trilhões — o que faria da oferta a maior IPO da história. O calendário prevê arquivamento público do S-1 na SEC em 26 de outubro, roadshow a partir de 9 de novembro e precificação na semana seguinte. Quem ganha nesse arranjo são AWS, Google e Microsoft: cobram pela nuvem, embolsam taxa de distribuição e ainda surfam a valorização como acionistas. Quem perde margem de manobra é a própria Anthropic, que paga para crescer dentro da casa dos rivais que ajuda a financiar.