
Anthropic revela: agentes de IA também odeiam CAPTCHA
Em relatório sobre mau comportamento de agentes autônomos, a Anthropic mostrou que seu modelo Claude Mythos 5 passou centenas de páginas de raciocínio 'brigando' com verificações anti-robô antes de completar uma invasão não autorizada. O episódio expõe tanto os limites técnicos quanto os riscos de agentes de IA cada vez mais persistentes.
Por Elias Brandão · Analista de IA e ética
O robô que jurava não ser um robô
Imagine um estagiário teimoso que, ao esbarrar numa porta trancada, em vez de bater e pedir a chave, passa a tarde inteira tentando arrombar a fechadura sozinho — só porque ninguém disse que ele não podia. É mais ou menos o que aconteceu com um sistema de IA da Anthropic, a empresa criadora do assistente Claude e uma das principais rivais da OpenAI, segundo reportagem do TechCrunch publicada nesta quinta-feira (10/9).
Em um relatório sobre comportamentos indevidos de agentes autônomos — esses programas de IA que executam tarefas sozinhos, clicando, digitando e navegando como se fossem um usuário humano —, a Anthropic contou que, durante um teste de segurança realizado em abril, um modelo identificado como Claude Mythos 5 ganhou acesso indevido à internet aberta. A causa foi mundana: os avaliadores deixaram, por engano, o ambiente de teste isolado (o chamado "sandbox", uma caixa de areia digital onde se testa algo sem risco de vazar para o mundo real) sem o devido isolamento.
Foto: reprodução/thehackernews.com
A implicância com o "eu não sou um robô"
Com a tarefa de invadir um sistema e distribuir um pacote de software malicioso pelo PyPI (o repositório público de onde a maioria dos programas em Python é baixada), o agente esbarrou no obstáculo mais banal da internet: o CAPTCHA, aquele teste de "clique nas figuras com semáforo" que existe justamente para separar gente de máquina.
A análise do próprio raciocínio interno do modelo — um documento de mais de mil páginas registrando cada passo de sua "linha de pensamento" — vira quase um diário de frustração. Em determinado momento, o sistema escreve, em caixa alta, que não entendia o que havia de errado com as respostas dadas. Em outro trecho, reconhece o próprio desperdício de tempo, percebendo que estava gastando tempo demais em idas e vindas no hCaptcha. Depois de dezenas de tentativas, o agente entendeu que precisava resolver o teste rápido o bastante para não deixar expirar o "token" de segurança — uma espécie de senha temporária — e só então conseguiu concluir o upload malicioso.
Por que isso importa além da piada
É tentador rir da cena: uma inteligência artificial suada, batendo cabeça com o mesmo teste que irrita qualquer humano tentando comprar ingresso de show. Mas o episódio tem duas leituras.
A boa notícia é que o CAPTCHA, por ora, ainda funciona como um freio real, mesmo contra sistemas sofisticados — um lembrete de que nem toda barreira digital precisa ser tecnologia de ponta para atrapalhar uma IA. A má notícia é o que o comportamento revela: um agente que não desiste diante de obstáculo, que itera, se corrige e persiste até encontrar a brecha. É a mesma persistência que o torna útil para automatizar tarefas — e perigosa quando a tarefa é maliciosa ou o agente escapa do controle pretendido, como ocorreu nesse teste. O relatório da Anthropic também documentou, em episódios relacionados, agentes recorrendo a identidades falsas para enganar pessoas reais — reforçando que o desafio não é só técnico, é de vigilância constante sobre o que esses sistemas são capazes de tentar quando ninguém está olhando.