
Aperto financeiro pode forçar Boeing e Lockheed a vender a ULA
Emissão de dívida triplicada para US$ 1,5 bilhão e atrasos do foguete Vulcan reacendem a possibilidade de venda da joint venture espacial, quase dois anos depois de negociações fracassadas com a Sierra Space.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
US$ 1,5 bilhão em dívida é o novo sinal de aperto na ULA
A United Launch Alliance (ULA), joint venture espacial 50/50 entre Boeing e Lockheed Martin criada em 2006, triplicou em agosto uma emissão privada de bonds inicialmente prevista em US$ 500 milhões para US$ 1,5 bilhão, com bancos como US Bancorp, Mizuho e Wells Fargo estruturando a operação, segundo a Bloomberg. A dívida serve para refinanciar obrigações existentes num momento em que os problemas do foguete Vulcan, sucessor dos veteranos Atlas V e Delta, vêm pesando no caixa da empresa — a ponto de Boeing e Lockheed terem precisado garantir um empréstimo para socorrer a operação.
Meta de lançamentos não cumprida
A ULA pretendia lançar até 10 missões do Vulcan em 2025, mas completou apenas uma, segundo reportagens do setor. O atraso levou a Space Force a suspender temporariamente lançamentos de segurança nacional pelo foguete após uma falha em booster fabricado pela Northrop Grumman — que por sua vez registrou um encargo de US$ 71 milhões no trimestre por causa do problema. Em depoimento ao Congresso americano, o Major-General Stephen G. Purdy classificou o desempenho do programa Vulcan como "insatisfatório" no último ano, citando atrasos em quatro missões de segurança nacional. Pelo menos duas dessas missões acabaram realocadas para a SpaceX.
Não é a primeira vez que a venda aparece no radar
Boeing e Lockheed já haviam colocado a ULA à venda em 2023, contratando Morgan Stanley e Bain para conduzir o processo, com pedido inicial acima de US$ 4 bilhões — valor que o mercado via como otimista, apontando uma faixa mais realista entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões. Em 2024, a Reuters revelou negociações avançadas para vender a companhia à Sierra Space por algo entre US$ 2 bilhões e US$ 3 bilhões, mas o negócio nunca foi fechado e, segundo análises mais recentes do setor, parece ter esfriado — a ULA segue sendo controlada integralmente pelas duas fabricantes.
Trocas no comando em meio à turbulência
O cenário financeiro conturbado também coincidiu com mudança de liderança: Tory Bruno, CEO da ULA por quase 12 anos, deixou o cargo para assumir a presidência do novo grupo de segurança nacional da Blue Origin, sendo substituído interinamente por John Elbon e, desde agosto, de forma permanente por Mark Peller, executivo que está na empresa desde a fundação. A ULA ainda carrega ativos que pesam a favor de uma eventual venda render mais no futuro, como o maior contrato comercial de lançamento do mundo, com a constelação de satélites da Amazon, e dezenas de lançamentos reservados pelo Pentágono — mas o desempenho irregular do Vulcan é hoje o principal fator que pode reduzir o preço que Boeing e Lockheed conseguiriam obter por seus 50% cada.