
Apple negocia com chinesa CXMT para driblar crise global de chips de memória
Apple testa chips de memória da estatal chinesa CXMT para escapar da alta de preços provocada pela demanda de IA, mas o movimento já gerou reação bipartidária no Senado dos EUA e pressão sobre o governo Trump.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
CXMT, a quarta maior fabricante de DRAM do mundo, virou opção da Apple
A Apple está testando chips de memória da chinesa CXMT (ChangXin Memory Technologies) para escapar do aperto global de DRAM causado pela corrida da inteligência artificial. Segundo apurou o Olhar Digital, a companhia já qualificou componentes da fabricante estatal para uso em iPhones e MacBooks vendidos no mercado chinês — por enquanto, sem tocar na linha global.
O movimento não é isolado. HP e Acer já usam memórias CXMT em dispositivos comercializados fora dos Estados Unidos, um sinal de que a indústria de hardware está migrando para fornecedores chineses à medida que Samsung, SK Hynix e Micron não dão conta da demanda disparada pelos data centers de IA. A CXMT, que hoje responde por cerca de 11% da capacidade global de DRAM e projeta chegar a 15% até 2028 com novas linhas em Hefei, Xangai e Pequim, foi uma das grandes beneficiadas da escassez: lucrou perto de US$ 4,8 bilhões só no primeiro trimestre de 2026, revertendo anos de prejuízo. A empresa ainda estreou na bolsa de Xangai em 27 de julho, com IPO de US$ 8,6 bilhões e ação disparando mais de 466% no primeiro pregão.
Foto: reprodução/cnbc.com
Quem ganha e quem perde nessa aproximação
Para a Apple, a lógica é de preço e disponibilidade: repassar menos a crise de memória ao consumidor — a empresa já vinha reajustando preços globalmente citando a falta de chips — e garantir fornecimento sem depender só dos três grandes asiáticos. Restrições federais limitam o alcance do acordo: a Apple pode comprar componentes prontos e negociar preço, mas está proibida de encomendar chips personalizados ou repassar especificações técnicas à CXMT.
Quem sai perdendo, ao menos na narrativa política, é a relação da empresa com Washington. Sete senadores — entre eles o republicano Jim Banks e o democrata Chuck Schumer — enviaram carta à Apple em 30 de julho exigindo o compromisso de não usar chips da CXMT e da YMTC, ambas classificadas pelo Departamento de Guerra dos EUA como empresas ligadas ao aparato militar chinês. A cobrança tem prazo: resposta até 21 de agosto. Os senadores lembram que a lei de defesa de 2023 já veta compras federais de produtos com semicondutores dessas empresas a partir de dezembro de 2027, e argumentam que a adesão da Apple sinalizaria ao mercado global que fornecedores sob escrutínio de segurança nacional são aceitáveis.
A Apple, por sua vez, tem feito lobby junto ao governo Trump para validar o plano e evitar que a CXMT seja incluída na lista de entidades sancionadas — o que travaria de vez a aposta chinesa da empresa.
Atualização (10/08, 12:49): Atualização (10/08/2026): a negociação da Apple com a chinesa CXMT avançou de fase: a empresa já iniciou testes de qualificação técnica de chips de memória DRAM (DDR5 e LPDDR5X) da fabricante, mirando inicialmente produtos destinados ao mercado chinês, incluindo iPhone e MacBook. O iPhone 18 Pro deve ficar de fora dessa primeira leva, já que seu desenvolvimento está em estágio avançado demais para trocar de fornecedor de memória agora.
Ao contrário do que se poderia supor, os chips chineses não saem necessariamente mais baratos — podem custar o mesmo ou até mais que os de Samsung, SK Hynix e Micron, em meio à escassez global de DRAM puxada pela demanda de data centers de IA. A CXMT também tem capacidade de produção comprometida com outros pedidos até o fim do ano, o que limita o volume disponível para a Apple no curto prazo. Outro obstáculo: o governo dos EUA trata a CXMT como ligada às Forças Armadas chinesas, e regras americanas dificultam o compartilhamento de especificações técnicas da Apple com a fabricante — a empresa faz lobby em Washington para obter mais margem de manobra.