tech & talk
IA13 de ago. de 2026, 16:56

Apple negocia com editoras para alimentar a Siri com notícias via IA

A Apple está em conversas com veículos de imprensa para que a Siri, remodelada com IA, tenha acesso a conteúdo jornalístico atualizado. O modelo de pagamento proposto — por uso, e não por licença fixa — divide opiniões entre editoras.

Por Elias Brandão · Analista de IA e ética

Compartilhar

Uma Siri que finalmente lê jornal

Imagine contratar um estagiário brilhante, mas que só pode responder perguntas com o que aprendeu até um certo dia — e nunca mais se atualiza. Foi mais ou menos esse o problema histórico da Siri: pouco à vontade com perguntas sobre o que está acontecendo agora. Segundo reportagem do Wall Street Journal, replicada pelo Olhar Digital, a Apple quer resolver isso negociando acordos plurianuais com editoras de conteúdo jornalístico para que a nova versão da assistente, com IA e prevista para chegar ainda em 2026, consiga responder com informações atualizadas e confiáveis.

O modelo de pagamento é a parte interessante

Foto: reprodução/9to5mac.com

Aqui mora a novidade que merece tradução. A maioria dos acordos entre empresas de IA e editoras até hoje segue uma lógica de "assinatura": a empresa de tecnologia paga um valor fixo e ganha acesso amplo ao acervo do veículo, meio que um buffet liberado. A Apple propôs algo diferente: pagar por uso, ou seja, a editora recebe cada vez que seu conteúdo é efetivamente puxado pela Siri para responder a um usuário — mais parecido com pagar por prato consumido do que por um buffet fechado. As conversas envolvem cifras que somam noves dígitos em dólares, segundo o WSJ.

O lado da Apple: consertar a fama de atrasada

Do ponto de vista da Apple, a lógica é simples: a Siri virou motivo de piada por não conseguir tarefas básicas, e a empresa quer uma assistente que converse melhor, entenda contexto pessoal e o que está na tela do aparelho — e que não erre feio quando o assunto é atualidade. Vale lembrar que a própria Apple já apanhou nesse quesito: em 2024, seu recurso de resumo automático de notificações chegou a distorcer manchetes, o que obrigou a empresa a desativar a função às pressas. Evitar repetir esse erro é parte da motivação.

O lado das editoras: quem garante que o crédito é justo?

Já para as editoras, a cautela é compreensível. Pagamento por uso soa atraente no discurso, mas levanta perguntas incômodas: como se mede exatamente quando um conteúdo foi "usado" por um sistema de IA que reformula e resume informações com suas próprias palavras? Há o risco de que reportagens caras de apurar — que exigem repórteres, viagens, checagem — sejam consumidas por um usuário via Siri sem que ele nunca clique no site original, cortando o tráfego que hoje sustenta o modelo de negócio jornalístico. É a mesma tensão que já apareceu em outros acordos de IA com a imprensa mundo afora: a tecnologia promete alcance, mas ameaça a audiência direta. A Apple, procurada, não comentou as negociações.


Atualização (13/08, 12:54): Atualização: segundo reportagem do The Wall Street Journal, a Apple estaria considerando um orçamento de nove dígitos — ou seja, algo entre US$ 100 milhões e US$ 999 milhões — para bancar os pagamentos às editoras que fornecerão conteúdo noticioso à nova Siri baseada em IA.

De acordo com o WSJ, a proposta da Apple foge do modelo tradicional de licenciamento com taxa fixa de acesso amplo ao conteúdo: a empresa quer adotar uma estrutura de compensação variável, na qual as editoras seriam pagas conforme o uso efetivo de suas matérias pela IA, em acordos plurianuais.

A cifra de nove dígitos dá a primeira dimensão concreta do tamanho do investimento que a Apple está disposta a fazer para garantir que a futura Siri tenha acesso a notícias atualizadas.

applesirijornalismoia generativaeditorasatualizada
Compartilhar