
Apple Watch "sempre ouvindo" acende alerta de privacidade
Novos recursos do Apple Watch que resumem conversas ao redor do usuário provocaram reação imediata de especialistas em privacidade, que veem riscos legais e um avanço na normalização da vigilância cotidiana.
Por Denise Sampaio · Repórter de Segurança
O que aconteceu
Os novos Apple Watch Series 12 e Apple Watch Ultra 4 chegam com recursos de "Audio Intelligence" batizados de Live Rewind e Siri Recap. O Live Rewind permite reproduzir os últimos 15 segundos de uma conversa como texto, bastando apertar duas vezes a Digital Crown. Já o Siri Recap monitora o áudio ao longo do dia e usa a Apple Intelligence para gerar resumos das conversas, salvos como notas no iPhone.
A Apple diz que a arquitetura foi pensada para preservar privacidade: um modelo leve no chip S11 apenas detecta se há fala acontecendo, sem transcrever nada; o áudio passa por um buffer protegido no Secure Enclave, é enviado de forma criptografada ao iPhone e apagado do relógio assim que a transferência termina. Segundo a empresa, nenhuma gravação bruta fica armazenada.
Foto: reprodução/macdailynews.com
Ainda assim, a reação de especialistas foi rápida. Adam Schwartz, diretor de litígios de privacidade da Electronic Frontier Foundation (EFF), afirmou que "nosso direito à privacidade conversacional precisa incluir a liberdade em relação a outras pessoas que, sem nosso consentimento claro, usam tecnologia para documentar o que estamos dizendo", e disse que a EFF ficou "decepcionada" com o lançamento do Siri Recap. Para ele, quem está por perto de um usuário do relógio não tem meio prático de consentir ou recusar a captura de sua fala.
Quem é afetado
O recurso afeta não só quem compra o relógio, mas qualquer pessoa que converse perto de um usuário — familiares, colegas de trabalho, desconhecidos em espaços públicos. Reportagens apontam que os novos recursos podem esbarrar em leis de escuta (eavesdropping) que exigem consentimento de todas as partes gravadas, dependendo da jurisdição. O caso se soma a um cenário mais amplo de gadgets "always-on", como óculos com inteligência artificial, que tornam a escuta e a gravação contínuas cada vez mais comuns e normalizadas no dia a dia.
O que fazer agora
Até que o debate regulatório avance, veja recomendações práticas:
- Pergunte e avise: se estiver usando o relógio perto de outras pessoas, informe que o recurso de resumo de conversas está ativo.
- Revise as permissões do Apple Watch e do iPhone e desative Live Rewind e Siri Recap se não quiser usá-los.
- Fique atento a ambientes sensíveis (reuniões confidenciais, consultórios, encontros pessoais) onde a escuta contínua pode ser inadequada ou ilegal sem consentimento.
- Acompanhe a política de privacidade da Apple sobre retenção e uso dos resumos gerados, já que as notas ficam salvas no iPhone.
- Empresas e órgãos públicos devem considerar políticas próprias sobre o uso desses recursos em ambientes de trabalho.