
Aquecimento do Himalaia pode provocar novos desastres como o do Nepal, dizem cientistas
Avalanche de rocha e gelo que percorreu quase 100 km e deixou cerca de mil mortos ou desaparecidos no Nepal acendeu um alerta: o derretimento do permafrost pode estar destravando novos colapsos no teto do mundo.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: imagine um pedaço de montanha do tamanho de um bairro inteiro se soltando a quase 5.200 metros de altitude, despencando cerca de 1,2 mil metros e virando uma massa de rocha e gelo que desce um vale a mais de 180 km/h — rápido o bastante para varrer 22 quilômetros em pouco mais de 6 minutos. Foi isso que aconteceu em 26 de agosto perto do pico Langtang Lirung, na fronteira entre Nepal e China, dando origem a uma enxurrada que percorreu quase 100 km rio abaixo pelo Lhende Khola.
O que está confirmado
O saldo é de cerca de mil pessoas mortas ou desaparecidas, segundo o Olhar Digital. Levantamentos internacionais feitos nos dias seguintes, caso da Yale Climate Connections, trouxeram números preliminares e ainda voláteis, com centenas de mortos confirmados no Nepal e no Tibete e milhares de pessoas, entre elas centenas de estrangeiros, ainda dadas como desaparecidas — típico desse tipo de tragédia, em que a contagem sobe conforme buscas avançam em terreno de difícil acesso.
Foto: reprodução/phys.org
Também está bem estabelecido o mecanismo físico por trás do colapso. Segundo a reportagem original, o gelo funciona como uma espécie de cimento natural que mantém rochas fraturadas coladas nas encostas de alta montanha. Quando esse gelo — parte dele em permafrost, solo permanentemente congelado — derrete, as ligações entre rocha e gelo se rompem, e a encosta perde sustentação. A Universidade de Oslo e a Yale Climate Connections registraram que a área do colapso vem esquentando cerca de 5°F desde 1940, quase o dobro do ritmo médio de aquecimento do planeta.
O que é hipótese
Que o episódio do Nepal seja um prenúncio, e não um evento isolado, é a parte do alerta que depende de modelagem, não de causa e efeito comprovado. Um estudo que mapeou 60 avalanches de rocha e gelo na região conhecida como High Mountain Asia — Himalaia, Karakoram, Pamir e sul e leste do Tibete — encontrou que 86% delas começaram em encostas com inclinação acima de 30° e altitude superior a 3 mil metros, e que 65% tiveram origem em áreas com permafrost provável. É um padrão, não uma previsão exata de onde a próxima montanha vai ceder.
Pesquisadores como Levan Tielidze, da Monash University, defendem que esses colapsos precisam ser tratados como um risco em cascata próprio, que combina derretimento de permafrost, fratura de rocha e liberação repentina de água e sedimento vale abaixo. Um precedente ajuda a entender por que os cientistas levam o padrão a sério: em fevereiro de 2021, um colapso semelhante em Chamoli, na Índia, matou ou deixou desaparecidas mais de 200 pessoas.
O que ainda não dá para cravar é a frequência exata com que esses eventos vão se repetir, nem quais encostas específicas correm risco imediato — lacuna que motiva o pedido de pesquisadores por monitoramento mais amplo de permafrost em alta montanha, hoje concentrado em poucos pontos da região.