
Aquecimento global rompe sintonia histórica entre Pacífico e Índico
Estudo na Nature Communications mostra que emissões humanas já superam a influência natural do Pacífico sobre o Índico, um desacoplamento que pesquisadores classificam como sem precedentes nos últimos mil anos.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagine dois metrônomos que bateram o mesmo compasso por séculos, sobrevivendo a erupções vulcânicas e a mudanças de clima naturais, e que agora, em poucas décadas, simplesmente saíram do ritmo. É essa a metáfora que dá pra tirar de um estudo publicado na Nature Communications que reconstruiu 400 anos de comportamento dos oceanos Pacífico e Índico — e descobriu que eles pararam de se mover em conjunto.
O que está confirmado
Foto: reprodução/olhardigital.com.br
A pesquisa, liderada por Shawn Wang (hoje na University of Colorado Boulder, ex-WHOI) e Caroline Ummenhofer, cientista sênior da Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI), combinou registros paleoclimáticos — corais, anéis de árvore e estalagmites — com observações modernas e simulações de modelos climáticos cobrindo cerca de mil anos. O resultado: durante praticamente todo o período pré-industrial, os modos de variabilidade do Oceano Índico estiveram fortemente acoplados ao que acontecia no Pacífico tropical (o mesmo sistema por trás do El Niño). Essa sintonia só foi interrompida uma vez antes, entre 1810 e 1850, após uma sequência de grandes erupções vulcânicas tropicais — a mais notória delas, o Monte Tambora, na Indonésia, em 1815.
Desde os anos 1980, porém, os pesquisadores identificaram um novo colapso dessa relação — e, segundo o estudo, ele não se parece com nada registrado nos últimos mil anos, nem mesmo com os episódios de forte vulcanismo do passado. "O atual rompimento da relação entre as bacias oceânicas é sem precedentes comparado a qualquer coisa que vimos nos últimos mil anos, mais ou menos", afirma Wang no comunicado da WHOI.
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O que ainda é hipótese
Aqui a linha entre dado e interpretação importa. O que está bem estabelecido é a correlação histórica entre as duas bacias e sua quebra recente. Já a atribuição causal — de que é o aquecimento provocado por emissões humanas, e não uma flutuação natural, o motor desse desacoplamento — é a interpretação central dos autores, ainda que sustentada pelo cruzamento entre paleoclima, observações e modelos. "Uma descoberta importante é que o aquecimento global e as emissões humanas estão agora superando a influência natural do Pacífico sobre o Oceano Índico", diz Ummenhofer. Delia Oppo, pesquisadora emérita da WHOI e coautora, reforça que o Índico funciona como um enorme reservatório de calor capaz de "descolar" do que o Pacífico está fazendo.
Por que isso importa
A consequência prática, segundo os autores, é para a previsibilidade climática: regiões populosas da África, Ásia e Austrália dependem de modelos que assumem esse acoplamento Pacífico-Índico para prever monções, secas e chuvas sazonais. Se a sintonia entre os dois oceanos está mesmo se rompendo, os modelos baseados no comportamento histórico podem perder precisão justamente quando mais se precisa deles.