
Asas de borboleta usam o mesmo truque dos postes de barbearia contra predadores
Estudo publicado na Nature mostra que o formato e o desenho das asas de borboletas criam uma ilusão de movimento parecida com a dos postes listrados de barbearia, dificultando que pássaros calculem velocidade e direção do inseto em voo.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
Imagine tentar acertar, com o dedo, um alvo do tamanho de uma borboleta se movendo em ziguezague — só que o alvo também está "mentindo" pra você sobre pra onde está indo. É mais ou menos esse o efeito que pesquisadores da Universidade de Exeter e da Universidade de Essex, no Reino Unido, descreveram em um estudo publicado na revista Nature: os padrões nas asas de borboletas, combinados com o jeito como elas batem as asas, criam uma ilusão visual que confunde o cálculo de velocidade e direção de quem está tentando capturá-las.
O que foi confirmado pelo estudo
A pesquisa, liderada pelos cientistas George Hancock e Jolyon Troscianko, usou câmeras de alta velocidade (mais de 1.000 quadros por segundo) para filmar decolagens reais de borboletas e analisou os padrões de cerca de 400 espécies europeias. Os pesquisadores também rodaram simulações computacionais que "evoluíram" mais de 50 mil padrões de asas a partir de pontos aleatórios, selecionando aqueles que geravam mais confusão de movimento — e esses padrões simulados convergiram para desenhos parecidos com os encontrados na natureza.
Em testes com 100 voluntários humanos tentando "capturar" borboletas virtuais em telas sensíveis ao toque, os indivíduos cujos padrões de asa foram previstos como mais eficazes em gerar confusão visual fizeram as pessoas mirarem mais longe do alvo real — ou seja, erraram por mais distância.
A comparação com o poste de barbearia
O mecanismo é comparado ao efeito conhecido como "ilusão do poste de barbearia": aquele poste listrado de vermelho e branco na porta de barbearias, cujas listras parecem subir infinitamente mesmo que o poste só esteja girando no próprio eixo. Segundo Troscianko, as asas das borboletas se deformam durante o voo — se juntam no movimento de subida e se separam na descida —, fazendo com que as listras mudem de ângulo e apontem para direções diferentes a cada batida.
O que ainda é hipótese
Os autores destacam que esse tipo de "motion dazzle" pode ser bem mais comum na natureza do que se imaginava — possivelmente presente também no bater de asas de pássaros e no movimento de caudas de lagartos e peixes —, mas essa extensão a outros grupos de animais ainda não foi testada diretamente pelo estudo. Também não é o único mecanismo de defesa dessas borboletas: Hancock nota que é intrigante que muitas espécies europeias, que não são tóxicas nem impalatáveis, tenham evoluído para ser tão visíveis.
Por que isso importa
O achado ajuda a explicar por que tantos animais — de zebras a cobras — desenvolveram padrões listrados chamativos: nem sempre é sobre se esconder, mas sobre confundir o predador no momento crítico do ataque, ganhando os milissegundos necessários para escapar.