
Asteroides podem ter 'escudo' contra planetas, mostra estudo premiado da Unesp
Pesquisa liderada por cientista da Unesp mostra que uma combinação de efeitos gravitacionais pode blindar certos asteroides de colisões com planetas como Vênus, Terra e Marte. O trabalho recebeu o prêmio CELMEC IX, da Sociedade Italiana de Mecânica Celeste e Astrodinâmica.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: imagina compartilhar a mesma pista de corrida do planeta Terra ao redor do Sol, na mesma velocidade média, sem nunca ser atropelado. É basicamente o que fazem os chamados asteroides co-orbitais — e um estudo brasileiro acaba de mostrar por que muitos deles conseguem correr essa pista sem bater na Terra, em Vênus ou em Marte.
O que foi confirmado
O trabalho é assinado por Valerio Carruba, da Faculdade de Engenharia e Ciências (FEG) da Unesp, câmpus de Guaratinguetá (SP), em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e a Universidade de Atacama, no Chile. Publicado na revista Celestial Mechanics and Dynamical Astronomy, o artigo recebeu o CELMEC IX Prize, concedido pela Sociedade Italiana de Mecânica Celeste e Astrodinâmica — associação científica italiana dedicada ao estudo de órbitas e dinâmica de corpos celestes. Ele foi um dos três trabalhos selecionados para apresentação no encontro internacional CELMEC IX, que acontece entre 14 e 18 de setembro em San Martino al Cimino, na Itália.
Os asteroides co-orbitais são corpos que levam aproximadamente o mesmo tempo que um planeta para dar a volta ao redor do Sol, presos numa relação gravitacional chamada ressonância de movimento médio 1:1. Segundo o levantamento de Carruba, já são conhecidos 21 co-orbitais de Vênus, 54 da Terra (mais 15 temporários) e 48 de Marte. De Mercúrio, nenhum foi confirmado até agora.
O estudo identificou que, quando essa ressonância 1:1 se combina com outro fenômeno gravitacional, o mecanismo von Zeipel–Lidov–Kozai (ZLK), o resultado pode restringir a órbita do asteroide de um jeito que reduz encontros próximos com o planeta. Carruba compara o ZLK a uma gangorra: "quando a excentricidade aumenta, a inclinação tende a diminuir, e vice-versa", descreveu ao Jornal da Unesp. Esse vaivém faz o ponto da órbita mais próximo do Sol oscilar em torno de ângulos específicos, em vez de variar livremente — o que, na prática, mantém o asteroide fora de rota de colisão.
O que ainda é hipótese ou está em investigação
Não se trata de um escudo físico nem de uma barreira que impede qualquer aproximação: é um efeito de estabilidade orbital que parece favorecer alguns objetos, mas não todos. O próprio pesquisador reconhece que a dinâmica ainda intriga a equipe: "estamos investigando essa dinâmica complicada porque muitos desses objetos co-orbitais são extremamente instáveis", disse Carruba. Ou seja, o mecanismo pode proteger alguns co-orbitais por períodos longos, mas outros continuam vulneráveis a mudanças orbitais que os tirem dessa configuração — e quantificar essa fronteira entre estabilidade e risco é o próximo passo da pesquisa.
Por que importa
Entender que fatores blindam ou não um asteroide de colisões ajuda a mapear melhor riscos de impacto no Sistema Solar interno e a refinar buscas por objetos co-orbitais ainda não descobertos, como os de Vênus, historicamente difíceis de observar da Terra.