
Até a Benchmark admite: corrida da IA está corroendo a regra de não investir em rivais
Sócios da gestora de venture capital dizem que a velocidade da IA tornou insustentável a antiga norma informal do Vale do Silício contra apoiar startups concorrentes. Caso Factory vs. Cognition expôs a tensão.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
Regra não escrita começa a ruir
A Benchmark, uma das gestoras de venture capital mais tradicionais do Vale do Silício, admitiu publicamente que a explosão da inteligência artificial está corroendo um dos pactos informais mais antigos do setor: a recusa histórica de fundos em investir em startups que competem diretamente entre si. A avaliação foi dada por sócios da firma durante o TechCrunch Disrupt.
O que disseram os sócios
Eric Vishria resumiu o dilema de forma direta: "a realidade difícil é que toda empresa está evoluindo muito rapidamente", tornando cada vez mais comum que negócios antes distintos passem a disputar o mesmo mercado. Chetan Puttagunta foi além, apontando que a própria IA acelera o problema ao reduzir drasticamente o custo de desenvolver produtos — o que faz rivais surgirem mais rápido e com fronteiras mais nebulosas entre seus modelos de negócio. Já Peter Fenton chamou a questão de "kryptonite" para a indústria de venture capital.
O estopim: Factory vs. Cognition
O caso que expôs a tensão publicamente envolveu a Factory, startup de automação de desenvolvimento de software. A empresa demitiu seu conselheiro e board observer Chris Degnan, acusando-o de conduta antiética por manter conversas com a Cognition, concorrente direta e criadora do agente de código Devin, enquanto tinha acesso a discussões internas do conselho da Factory. Degnan afirmou já ter pedido demissão e negou ter compartilhado informações confidenciais — ele depois assumiu o cargo de diretor de receita da Cognition. O investidor Vinod Khosla, cuja gestora Khosla Ventures aplica capital em ambas as empresas, defendeu publicamente Degnan e criticou o presidente da Factory — episódio que se tornou símbolo de como as linhas entre portfólios rivais estão cada vez mais borradas.
Quem ganha e quem perde
O exemplo mais citado de que a norma já está furada é a coexistência de investidores em comum entre OpenAI e Anthropic, companhia dona do chatbot Claude — dois dos laboratórios de IA mais valiosos do mundo e rivais declarados. Para fundadores, a erosão do tabu pode significar mais acesso a capital, já que menos VCs se veem obrigados a escolher um único vencedor em cada categoria. Para os próprios fundos, o risco é reputacional: conselheiros e sócios passam a lidar com conflitos de interesse mais frequentes.
Por que isso importa agora
Com rodadas de IA se multiplicando e avaliações disparando, a pressão para investir rápido em múltiplos players do mesmo nicho só deve crescer. A declaração da Benchmark sinaliza que mesmo as gestoras mais tradicionais do setor já tratam o antigo código de conduta como insustentável diante do ritmo da inteligência artificial generativa.