
Auditoria aponta falhas na supervisão de IA na prefeitura de NY
Relatório do Controlador do Estado de Nova York mostra que recomendações de 2023 sobre governança de inteligência artificial seguem apenas parcialmente cumpridas, sem inventário completo de ferramentas nem canal formal de reclamação.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Auditoria escancara o que falta na supervisão de IA em Nova York
Toda cidade que corre para adotar inteligência artificial no serviço público devia se perguntar: quem fiscaliza esses sistemas depois que entram no ar? Em Nova York, quem fez essa pergunta foi o Escritório do Controlador do Estado de Nova York (Office of the State Comptroller), órgão fiscalizador independente estadual chefiado por Thomas P. DiNapoli — e a resposta não foi animadora.
Em relatório de acompanhamento divulgado em 27 de agosto de 2026, o Controlador avaliou o que a prefeitura de Nova York implementou desde uma auditoria original de fevereiro de 2023, que havia feito três recomendações ao Office of Technology and Innovation (OTI), órgão municipal responsável pela tecnologia e supervisão de IA nas agências da cidade: usar frameworks de governança para avaliar riscos, revisar políticas antigas em busca de lacunas e implantar uma estrutura efetiva de controle. Resultado, até abril de 2026: as três recomendações seguem apenas "parcialmente implementadas".
O que ainda não existe em Nova York
A lista de faltas é concreta. A cidade não tem um inventário completo de quais ferramentas de IA cada agência usa. Não existe um canal formal para o cidadão reclamar de decisões tomadas ou influenciadas por algoritmos. A avaliação de risco dos sistemas ainda é voluntária, não obrigatória. E, segundo o próprio relatório, nem sequer há consenso interno sobre o que conta como "IA" para fins de política pública — um problema que soa familiar a qualquer administração, brasileira inclusive, que tenta regular tecnologia em cima da hora.
"As medidas-chave de supervisão e responsabilização ainda estão incompletas", afirmou DiNapoli, alertando que a ausência de governança adequada pode levar a "resultados equivocados, desatualizados ou imprecisos". Um porta-voz do OTI disse que a prefeitura "aprecia a parceria e o foco do Controlador Estadual neste tema importante" e está revisando as recomendações.
Uma cadeira que já trocou de dono duas vezes
Vale lembrar o histórico: em 2019, a cidade criou o cargo de Algorithms Management and Policy Officer para cuidar disso, mas o extinguiu em 2022, repassando a função ao recém-criado OTI. Em novembro de 2025, o Conselho Municipal aprovou leis prevendo um novo Office of Algorithmic Data Accountability, com prazo de criação até junho de 2026 — cujo status, segundo as fontes apuradas, segue incerto.
Fica a pergunta de sempre: quanto custa manter — ou deixar de manter — essa estrutura de supervisão? Nenhuma das fontes traz valores. Enquanto isso, sistemas como o chatbot municipal MyCity seguem no ar atendendo cidadãos sem que exista, ainda, um processo formal de auditoria contínua. Para quem acompanha debates parecidos no Brasil, é um lembrete de que lançar a ferramenta é a parte fácil — fiscalizá-la depois é que costuma faltar orçamento e vontade política.