
Auditoria aponta gastos 'perdulários' no trem-bala da Califórnia
Inspetor-geral encontrou quase US$ 600 mil em despesas de consultores sem justificativa, incluindo viagens a boate e bar de charuto, enquanto o projeto corre risco de ficar sem caixa em 2027.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
O que a auditoria encontrou
A California High-Speed Rail Authority, agência estatal responsável por construir a ferrovia de alta velocidade entre São Francisco e Los Angeles, reembolsou quase US$ 600 mil (cerca de R$ 3,2 milhões) em despesas de viagem de consultores terceirizados sem documentação que justificasse os gastos, segundo relatório do próprio inspetor-geral da autarquia. A lista de itens pagos com dinheiro público inclui visitas a academias, uma boate, uma sala de escape, um bar tiki e um bar de charutos ao longo de dois anos.
Entre as empresas contratadas está a KPMG, uma das maiores consultorias de auditoria do mundo, além de um escritório de advocacia e duas joint ventures de engenharia responsáveis por gerenciar obras e projetar trilhos e sistemas do trem-bala. O relatório aponta que a autoridade aprovou ao menos US$ 685 mil — cerca de 60% do total questionado — em reembolsos sem sequer ter autorizado a viagem antes de ela acontecer; em alguns casos, a equipe da agência só soube do deslocamento quando a fatura chegou.
Foto: reprodução/smartcitiesdive.com
Por que isso importa para quem paga a conta
O problema chega em mau momento: um relatório do próprio inspetor-geral, de 31 de julho, já alertava que a autoridade pode ficar sem dinheiro em caixa até dezembro de 2027. A saída proposta é pedir autorização para tomar empréstimo antecipado contra os US$ 20 bilhões que o projeto deve receber ao longo de duas décadas de um programa estadual de crédito de carbono. Parlamentares republicanos já cobraram uma investigação formal sobre os "gastos desperdiçados" em 22 de setembro.
O que ainda falta responder
O relatório não diz se algum dos consultores vai devolver o dinheiro, nem se os contratos com as empresas envolvidas serão revistos. Também não fica claro quem, dentro da autoridade, aprovava reembolsos sem checar recibos — falha de controle que se repete em um projeto que já consome bem mais dinheiro público do que o orçado desde que foi aprovado, em 2008.