
Autonomy volta a apostar em carros a gasolina para salvar assinaturas
A startup de assinatura de veículos fundada por Scott Painter, do TrueCar, está adicionando carros a combustão da Ford à frota após o fracasso do plano só com elétricos. A mudança busca reduzir custos e ampliar o público que pode cancelar o serviço quando quiser.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
O pivô: da Tesla para a Ford
A Autonomy, startup americana de assinatura de veículos fundada por Scott Painter — também criador da TrueCar, plataforma de comparação de preços de carros nos EUA — está adicionando pela primeira vez veículos a combustão interna à sua frota. O novo catálogo traz modelos da Ford, como Mustang, Ranger, F-150, Bronco Sport, Escape e Explorer, fornecidos pela concessionária Galpin Motors, de Los Angeles, com disponibilidade inicial na Califórnia.
O modelo de negócio da Autonomy permite ao cliente assinar um carro pelo aplicativo, pagar por cartão de crédito e cancelar quando quiser, sem os compromissos de um financiamento tradicional. Mas manter esse modelo funcionando exige uma frota estável e previsível — e é aí que a empresa vinha falhando.
Por que o plano elétrico não vingou
A Autonomy nasceu apostando forte nos elétricos, começando com Tesla Model 3. Em agosto de 2022, a empresa fechou um compromisso para comprar 23.000 veículos elétricos, mas conseguiu adquirir apenas cerca de 1.000. Uma guerra de preços entre fabricantes de EVs corroeu o valor da frota em cerca de um terço, e a Autonomy quase fechou as portas em 2023. Scott Painter precisou resgatar a própria empresa em 2024. Hoje a frota elétrica soma pouco mais de 500 carros — uma fração do que havia sido prometido.
Segundo o CEO Fred Weick, a lição foi simples: "se você vai ter sucesso em qualquer coisa, tem que dar ao cliente o que ele quer". Com carros novos passando de 50 mil dólares e crédito difícil para quem tem pontuação baixa, a aposta exclusiva em elétricos deixou de fazer sentido para sustentar assinaturas acessíveis.
Quem ganha e quem perde
O público-alvo dos novos veículos a gasolina inclui estudantes universitários, famílias militares, trabalhadores estrangeiros e quem busca uma experiência parecida com carro de empresa — perfis que dificilmente comprariam um elétrico à vista ou fechariam um financiamento longo. A Ford e a Galpin Motors ganham um canal extra de distribuição via assinatura. Já o discurso original da Autonomy, de acelerar a adoção de elétricos por assinatura, perde força.
O caso ecoa o que aconteceu com a Hertz, que chegou a planejar comprar até 100 mil Teslas em 2021 e depois revendeu boa parte da frota em 2024, voltando a apostar em veículos a combustão. A Autonomy opera hoje na Califórnia, Arizona, Flórida, Texas, Nova York, Carolina do Norte e Washington, e o pivô sugere que, para sobreviver, o modelo de assinatura de carros pode precisar ser mais pragmático — e menos ideológico — sobre o tipo de motor debaixo do capô.