
Balsa elétrica que 'quase voa' pode mudar transporte em rios e baías
A startup Vessev criou uma balsa elétrica com hidrofólio que reduz consumo de energia e atrito com a água, apostando em transporte urbano sobre rios e baías. Para quem depende de travessias diárias, falta saber quando e a que custo isso chega às cidades.
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Uma balsa que corta a água em vez de empurrá-la
Quem depende de balsa para ir ao trabalho conhece a rotina: embarcação pesada, motor a diesel, viagem lenta e sacolejada. A startup Vessev — empresa que fabrica balsas elétricas com tecnologia de hidrofólio — quer mudar essa experiência com o VS-9, uma embarcação de cerca de 9 metros que, segundo a TechCrunch, eleva o casco para fora da água enquanto navega, reduzindo o atrito e tornando o trajeto mais suave e eficiente.
Como funciona a tecnologia
Foto: reprodução/techcrunch.com
O segredo está em estruturas parecidas com asas instaladas sob o casco, que sustentam a embarcação enquanto ela corta a água. Um foil frontal faz a maior parte do trabalho de sustentação, enquanto o foil traseiro contribui com cerca de 20% e abriga o motor elétrico, fabricado pela própria Vessev. As baterias são compradas de fornecedores externos — segundo o CEO e cofundador Eric Laakmann, porque esse componente já está comoditizado — e a recarga é feita com carregadores do tipo usado em carros elétricos.
Segundo o CEO, a balsa consegue transportar uma carga completa de passageiros por até 40 milhas náuticas (cerca de 74 km). A tecnologia funciona melhor em águas com ondas de até aproximadamente 0,75 metro, o que a torna mais indicada para lagos, rios e baías do que para mar aberto.
A aposta na mobilidade urbana
Foto: reprodução/portosenavios.com.br
A Vessev testou o VS-9 no rio East River, em Nova York, entre a marina do Brooklyn e Governors Island, e recebeu um aporte de US$ 19 milhões em rodada Series A em agosto. Os planos da empresa incluem produzir mais unidades e, no futuro, vender kits de hidrofólio elétrico para que outros estaleiros adaptem seus próprios barcos à tecnologia.
O movimento não é isolado: em Estocolmo, a Candela já opera uma linha pública de balsa hidrofólio elétrica, com promessa de reduzir em até 95% as emissões de CO2 e consumir bem menos energia por passageiro-quilômetro do que embarcações a diesel, segundo informações veiculadas na imprensa especializada.
E no Brasil, quem paga essa conta?
Para cidades brasileiras cortadas por rios e baías — caso de travessias já existentes em várias regiões do país — a ideia de uma balsa mais rápida, silenciosa e sem fumaça é sedutora. Mas as fontes consultadas não trazem valores de implantação em larga escala nem modelo de concessão. Fica a pergunta de quem vai pagar a conta de infraestrutura e frota, e sobretudo quem fiscalizaria a operação, a manutenção dos foils e a segurança dos passageiros numa tecnologia ainda recente. Antes de sonhar com uma balsa que "quase voa" sobre o Guaíba, a Baía de Guanabara ou o Rio Negro, caberia perguntar: quanto custa trazer essa tecnologia para cá, e quem garante que ela vai ser fiscalizada fora do laboratório?