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Smart Cities23 de set. de 2026, 20:56

Berlim testa IA para destravar pedidos de benefícios sociais

Projeto Beyond Forms, do CityLAB Berlin com apoio do Google.org, usa IA para guiar moradores no preenchimento de pedidos de assistência social. A cidade tem mais de meio milhão de beneficiários e taxas de erro que chegam a 90% nas solicitações.

Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities

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O problema é a burocracia, não a falta de direito

Imagine precisar de ajuda para pagar aluguel ou remédio e passar meses preenchendo formulários que você não entende. É essa a realidade de boa parte dos mais de 500 mil moradores de Berlim que recebem algum tipo de benefício social, seja renda básica, apoio à saúde ou auxílio para crianças. Segundo a Cities Today, entre 40% e 60% dos alemães elegíveis nunca chegam a solicitar o que têm direito — e, entre quem tenta, cerca de 90% dos pedidos saem incompletos ou com erros, gerando pedidos de complementação e esperas de três a cinco meses até uma resposta.

O que é o Beyond Forms

Para atacar esse gargalo, o CityLAB Berlin, laboratório público de inovação da cidade, lançou o projeto Beyond Forms, com apoio de uma bolsa de US$ 1 milhão e seis meses de suporte técnico do Google.org Fellowship. A proposta, que deve rodar por dois anos, é usar IA agêntica — sistemas capazes de tomar iniciativa dentro de um processo — para conversar com o morador, identificar quais benefícios ele pode receber, orientá-lo passo a passo e até preencher o formulário a partir de documentos enviados por ele. Nada é submetido sem aprovação humana: o próprio CityLAB descreve o modelo como "human-in-the-loop", ou seja, a IA prepara, mas a pessoa decide.

Quem garante que a IA não erra por você?

Aqui fica a pergunta que qualquer cidadão deveria fazer: se um algoritmo lê meus documentos e preenche meu pedido de benefício, quem audita essa leitura? O material do CityLAB Berlin e da Technologiestiftung Berlin, financiadora do laboratório, situa o projeto como uma fase de prototipagem — o sistema ainda não está em operação plena pela administração pública, e é o governo de Berlim que decide, depois, se e como colocá-lo em uso real. Ou seja, por ora, é um teste supervisionado, não uma decisão automatizada sobre quem recebe ajuda.

Berlim não está sozinha nessa aposta

A lógica de usar tecnologia para reduzir a barreira de acesso a direitos sociais não é exclusividade alemã — vários governos vêm tentando digitalizar e simplificar cadastros de assistência social para reduzir o chamado "não uso" de benefícios, quando o cidadão elegível desiste por causa da papelada. O diferencial de Berlim é combinar um laboratório público (CityLAB) com financiamento filantrópico de uma big tech (Google.org), parceria que também levanta a questão de custo: quanto o poder público pretende investir para manter esse tipo de ferramenta depois que o apoio do Google.org acabar, e se o modelo será replicável para outras prefeituras sem depender de doação corporativa.

O que vem a seguir

Segundo informações do próprio CityLAB Berlin, a instituição pretende continuar o projeto de forma independente até o fim de 2027, testando chatbots, reconhecimento de voz e imagem e análise automatizada de documentos. Até lá, vale acompanhar se a promessa de simplificar o acesso a benefícios vai, de fato, reduzir a fila de três a cinco meses — ou se vai apenas trocar o papel por uma nova camada de triagem digital.

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