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Ciência19 de set. de 2026, 11:01

Bicho microscópico repara cromossomos quebrados geração após geração

Rotífero bdeloide sobrevive a doses extremas de radiação e reconstrói seu DNA fragmentado ao longo de várias gerações, revela estudo publicado na Science Advances.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana: o bicho da vez mede menos de um milímetro, cabe de sobra na ponta de um alfinete e, mesmo assim, guarda um dos truques genéticos mais surpreendentes já registrados em um animal. É o rotífero bdeloide Adineta vaga, uma criaturinha de água doce que vive em musgos e líquens e que, segundo um novo estudo, consegue sobreviver com os cromossomos literalmente estilhaçados — e depois remontá-los ao longo de gerações.

O que foi confirmado

A pesquisa, publicada na revista Science Advances, é assinada por Antoine Houtain, da Universidade de Namur (UNamur, instituição belga de pesquisa), com equipes lideradas por Karine Van Doninck (Université libre de Bruxelles) e Bernard Hallet (Université catholique de Louvain). Os cientistas expuseram os rotíferos a doses de radiação de 100, 250 e 500 grays — a maior delas mais de 100 vezes a dose letal para um ser humano. O resultado: entre 88 e 440 quebras de DNA de dupla fita, com cromossomos individuais se fragmentando em até 30 a 50 pedaços na dose mais alta.

O que o estudo confirma é que esses animais não precisam remendar tudo de uma vez. Dois fatores tornam isso possível. Primeiro, os cromossomos do rotífero são holocêntricos — ou seja, não têm um único ponto central (centrômero) como os humanos, mas uma estrutura distribuída por toda a extensão do cromossomo. Isso permite que fragmentos soltos ainda participem normalmente da divisão celular, em vez de se perderem.

Segundo, e mais importante, os pesquisadores descreveram um mecanismo batizado de BIHER (break-induced homologous extension repair, algo como "reparo por extensão homóloga induzida por quebra"). Nele, o organismo usa uma cópia intacta do cromossomo homólogo como molde para reconstruir, aos poucos, as partes que faltam — um processo que pode se estender por várias gerações sucessivas, e não terminar em um único indivíduo.

O que ainda é hipótese

Os autores tratam o BIHER como um mecanismo transgeracional inédito na biologia conhecida, mas ainda cabe investigar até que ponto ele se aplica a outras espécies de bdeloides ou depende de particularidades exclusivas da Adineta vaga — um grupo que já é conhecido por dispensar reprodução sexuada há dezenas de milhões de anos. Também não está estabelecido se o mesmo tipo de reparo fragmentado e distribuído no tempo poderia, em teoria, inspirar estratégias de proteção genética em outros organismos, incluindo aplicações biomédicas — algo que o estudo não testa diretamente, apenas descreve o fenômeno observado em laboratório.

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