
Blackstone diz que medo de bolha de dívida em data centers de IA é exagero
Jas Khaira, chefe de IA da Blackstone, defende que a dívida bilionária por trás da expansão de data centers está lastreada em clientes de alta qualidade de crédito, como Microsoft e Meta, e não configura risco sistêmico.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
A Blackstone, gestora global de ativos alternativos com 1,3 trilhão de dólares sob gestão, afirma que o mercado está exagerando ao temer uma bolha de crédito na construção de data centers para inteligência artificial. Quem defende essa tese é Jas Khaira, responsável pelo hub de investimentos em IA da gestora, batizado de Blackstone N1 (BXN1), com sede em São Francisco.
O que Khaira disse
Em declarações feitas na conferência TechCrunch Disrupt, Khaira reconheceu que o aumento do custo de captação e o volume de dívida acumulado por empresas de infraestrutura de IA merecem atenção, mas rejeitou a ideia de que isso vá detonar uma crise de crédito generalizada. "Isso não parece 2008 com bancos de crédito abalado", disse o executivo, em referência à crise financeira global. Para ele, o fator decisivo é a qualidade do cliente por trás dos contratos que lastreiam os empréstimos: "O cliente é fundamental. Se for investimento-grade... o risco é precificado". Como a maioria dos data centers é construída para atender gigantes como Microsoft e Meta, a dívida estaria apoiada em contrapartes de altíssima qualidade de crédito.
Os números por trás da aposta
A Blackstone descreve a si mesma como a maior proprietária de capacidade computacional fora dos hiperscalers (as próprias Microsoft, Google e Amazon). O apetite da gestora pelo setor é concreto: 5 bilhões de dólares comprometidos na neocloud Crux AI, em parceria com o Google; uma linha de crédito de 10 bilhões de dólares para a Firmus, co-liderada com a Coatue; e uma joint venture de 1,5 bilhão de dólares com a Anthropic, batizada de Ode. O caso mais emblemático, porém, é o da CoreWeave: um empréstimo inicial de 2,3 bilhões de dólares concedido em 2023, quando a empresa faturava apenas 30 milhões, hoje se transformou em uma dívida total estimada em 50 bilhões de dólares.
Quem ganha e quem perde
O otimismo de Khaira contrasta com o nervosismo recente do mercado: as ações da CoreWeave caíram mais de 20% nas últimas semanas, a Firmus cancelou seu IPO na Austrália e os spreads de crédito do setor subiram após uma rodada de aumento de juros em setembro. Segundo o executivo, "há definitivamente ROI, mas é desigual" — ou seja, nem todo projeto de data center vai pagar a conta, mas os apoiados por contratos de longo prazo com hiperscalers tendem a sair ilesos. Se a aposta se confirmar, a própria Blackstone colhe os frutos de ter financiado a infraestrutura antes da concorrência. Se o ciclo de crédito apertar ainda mais, porém, neoclouds endividadas e menos diversificadas — como a própria CoreWeave — são as primeiras candidatas a sofrer, enquanto investidores que compraram dívida distressed a múltiplos descontados podem ser os verdadeiros vencedores da história.