tech & talk
CiênciaMercado29 de set. de 2026, 10:57

Boeing pode virar única fornecedora de transporte de astronautas dos EUA

Com a Dragon perdendo prioridade na SpaceX, o Starliner da Boeing se posiciona como transporte preferencial para as futuras estações comerciais dos EUA — mas a empresa ainda não revelou preços por assento para a década de 2030.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

Compartilhar

Pra escala humana: uma empresa, um único cliente cativo

Imagine ser a única transportadora de ônibus de uma cidade — e ainda assim não saber quanto vai cobrar dos passageiros daqui a quatro anos. É mais ou menos a posição da Boeing hoje: com a Dragon, da SpaceX, perdendo prioridade nos planos de longo prazo da empresa de Elon Musk, a cápsula Starliner deve se tornar, na prática, a única opção de transporte de astronautas para as futuras estações espaciais comerciais dos Estados Unidos.

O que está confirmado

John Mulholland, vice-presidente e gerente do programa Commercial Crew da Boeing, disse estar "incrivelmente animado" com a parceria com a NASA e confirmou que a empresa já conversou com todos os provedores do CLD (Commercial LEO Destinations) — o programa da NASA que financia estações espaciais privadas para substituir a Estação Espacial Internacional (ISS), cuja desativação está prevista para o fim da década. A meta da Boeing é virar fornecedora preferencial de transporte para essas futuras estações.

A NASA já confirmou que vai exercer opções de contrato para mais dois voos do Starliner à ISS, além de ajudar a bancar a adaptação da cápsula a um novo foguete: como os veículos Atlas V que hoje lançam o Starliner estão sendo aposentados, a agência vai apoiar a certificação do Vulcan Centaur, operado pela United Launch Alliance (ULA, joint venture entre Boeing e Lockheed Martin para lançamentos), para voos tripulados. O custo adicional estimado é de US$ 359 milhões. A próxima missão não tripulada do Starliner está prevista para não antes de dezembro; se tudo correr bem, o primeiro voo com tripulação nesse novo ciclo só deve ocorrer em meados de 2028.

O que ainda é disputa, não fato fechado

Empresas que constroem as futuras estações comerciais, como a Axiom Space, a Vast e a joint venture Voyager Technologies/Airbus responsável pela estação Starlab, reclamam que a Boeing não divulgou preços por assento para a década de 2030. A justificativa da fabricante é que não dá para fechar tabela enquanto o Vulcan e a versão adaptada do Starliner não estiverem certificados — argumento técnico razoável, mas que deixa essas empresas nascentes sem previsibilidade de custo justamente quando tentam atrair investidores. Para efeito de régua, a NASA hoje paga cerca de US$ 90 milhões por assento em voos do Starliner à ISS, número que não garante, porém, o preço comercial futuro.

Ou seja: a Boeing tem musculatura contratual para virar fornecedora única de transporte tripulado comercial nos EUA — mas a confiança do mercado emergente de estações privadas depende de algo que ainda não existe: um preço na mesa.

boeingnasastarlinerestações espaciaiscld
Compartilhar