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Ciência10 de set. de 2026, 21:29

Bomba de Hiroshima criou liga metálica nunca vista na Terra

Estudo publicado na Science Advances identificou, em partículas formadas pelos resíduos da explosão de 1945, uma liga metálica com estrutura cristalina inédita. Cientistas confirmam a composição, mas a origem exata do material ainda é debatida.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana

Imagine um grão de areia dividido em cerca de mil pedaços — isso é aproximadamente o tamanho da partícula metálica que intrigou cientistas: só 10 micrômetros. Pequena demais para ver a olho nu, mas grande o suficiente para reescrever o que sabemos sobre o que uma explosão nuclear é capaz de criar.

O que foi confirmado

Um estudo publicado na revista Science Advances, liderado por Luca Bindi, geólogo da Universidade de Florença (Itália), identificou uma liga metálica com estrutura cristalina nunca antes documentada — nem na natureza, nem em nenhum processo industrial conhecido. A equipe analisou 34 amostras de "hiroshimaites", partículas formadas pelos resíduos da explosão atômica de 6 de agosto de 1945, coletadas em areias da baía de Hiroshima.

A composição confirmada da liga inclui ferro, cromo, níquel, manganês, molibdênio, silício e alumínio, em proporções parecidas com as do aço inoxidável. O que chamou atenção dos pesquisadores não foi a mistura de elementos em si, mas o arranjo atômico: a liga cristaliza numa estrutura do tipo AlAu₄, uma variante ordenada do beta-manganês, configuração que os cientistas nunca tinham visto nesse tipo de combinação química.

Como isso se formou

Segundo o estudo, o processo começou com uma nuvem de vapor metálico — provavelmente originada de materiais urbanos, como estruturas de prédios, vaporizados pelo calor extremo da explosão. Essa nuvem se condensou e passou por um resfriamento extremamente rápido durante a expansão da bola de fogo nuclear, tudo em questão de segundos.

É aqui que entra a parte hipotética do estudo: os pesquisadores sugerem que a velocidade desse resfriamento pode ter "congelado" os átomos numa configuração mais complexa, antes que eles tivessem tempo de se rearranjar numa estrutura mais estável e comum. Em outras palavras, a explosão teria funcionado como um forno e um congelador simultâneos, girando rápido demais para que a natureza seguisse o caminho de cristalização que normalmente segue.

Por que isso importa

Para os cientistas, o achado é relevante porque mostra que uma explosão nuclear é capaz de reproduzir — em segundos e em escala microscópica — condições de temperatura, mistura e resfriamento difíceis de replicar deliberadamente em laboratório. Isso abre uma janela rara para observar como estruturas atômicas exóticas podem surgir sob estresse extremo, algo que interessa tanto à ciência dos materiais quanto à compreensão de fenômenos geológicos de altíssima energia.

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