
Boom de IA domina Climate Week e divide o setor de clima nos EUA
Startups de clima estão surfando a euforia da IA para captar recursos, enquanto investimentos em data centers levantam dúvidas sobre o impacto climático da corrida por infraestrutura.
Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado
US$ 14 bilhões é o número que resume o mês
O valor total de aportes de venture capital em climate tech somou US$ 14 bilhões no primeiro trimestre de 2026, subindo pelo quarto trimestre consecutivo, segundo dados da consultoria PitchBook citados pela TechCrunch. É o melhor ambiente de captação para o setor em anos — só que puxado por um motivo que incomoda parte da própria indústria: o apetite por infraestrutura para alimentar a corrida da inteligência artificial.
Quem ganha com a festa
Segundo a reportagem, os aportes se concentraram em três frentes que viraram queridinhas por causa da construção acelerada de data centers: ambiente construído, infraestrutura de rede elétrica e energia despachável — aquela que pode ser ligada e desligada conforme a demanda oscila. Startups que penavam para fechar rodadas, seja por corte de subsídios federais nos EUA, seja por investidores hesitantes, encontraram fôlego ao reposicionar o discurso para a linguagem da IA. Em um painel durante a New York Climate Week, dois fundadores do setor de energia, ouvidos pela TechCrunch, foram questionados se prefeririam uma expansão de data centers no ritmo atual ou uma marcha mais responsável do ponto de vista climático. A resposta dos dois, sem hesitar: mais rápido é melhor.
O incômodo que ninguém diz em voz alta
Nem todo mundo comemora. Segundo o artigo, cresce dentro do setor a preocupação com a quantidade de usinas a gás natural sendo erguidas só para dar conta da demanda elétrica da IA — um contraponto direto à missão original de boa parte dessas startups, que é reduzir emissões de carbono. Um fundador não identificado resumiu o clima ambíguo: grandes empresas ainda estão interessadas em clima, mas evitam alardear isso publicamente, com medo de provocar reação do governo Trump.
O contraste que os números escondem
O otimismo do trimestre não é unânime nem consistente com outra métrica da própria PitchBook: o financiamento captado por fundos de venture capital especializados em clima caiu quase 40% no ano anterior, para US$ 3 bilhões, segundo reportagem do Semafor — e, em meados de 2026, apenas US$ 546 milhões haviam sido levantados por esses fundos. Ou seja, o dinheiro que entra hoje vem menos de investidores dedicados ao clima e mais de quem está de olho na infraestrutura de IA. A leitura predominante na Climate Week, segundo a TechCrunch, é que essa "festa dos data centers" não deve durar para sempre — mas pode durar o suficiente para startups construírem negócios duráveis antes de voltar ao foco original em carbono.