
Boston cancela contrato com a Flock após câmeras compartilharem dados fora da cidade
A polícia de Boston descobriu que a Flock Safety havia liberado uma função de busca nacional em suas câmeras de leitura de placas, mesmo com o contrato exigindo que esse compartilhamento ficasse desligado.
Por Denise Sampaio · Repórter de Segurança
O que aconteceu
A Prefeitura de Boston, nos Estados Unidos, decidiu encerrar de vez o uso da Flock Safety, empresa americana que fabrica câmeras de leitura automática de placas de veículos usadas por departamentos de polícia. O motivo foi uma violação de contrato: a Flock havia habilitado uma função chamada "nationwide lookup" (busca em nível nacional), que permite que outras agências de segurança em qualquer lugar do país consultem os dados coletados pelas câmeras — mesmo o contrato assinado pela cidade determinando explicitamente que esse compartilhamento externo ficasse desligado.
O caso veio à tona num piloto de 156 dias, sem custo para a cidade, rodado entre abril e setembro de 2025 com 45 câmeras da Flock espalhadas por Boston. Três dias depois do início do teste, a polícia local (BPD) percebeu que agências de fora do estado estavam acessando placas, descrição de veículos, localização e horário registrados pelas câmeras — ao todo, 77 pedidos de dados vieram de agências externas durante o piloto. Uma auditoria interna também encontrou 11.004 buscas feitas por policiais de Boston no banco de dados, sendo que quase metade delas não tinha número de caso associado, o que dificulta rastrear se a consulta tinha justificativa legítima. A revelação foi feita pela rádio pública WBUR, antes da divulgação do relatório anual de tecnologias de vigilância da cidade ao conselho municipal.
Quem é afetado
Qualquer motorista que passou pelas 45 câmeras instaladas em Boston teve placa, trajeto aproximado e horário registrados — e, por um período, esses dados ficaram potencialmente acessíveis a policiais de outras cidades e estados sem autorização prevista em contrato. A Flock diz que a falha foi um erro de configuração do próprio sistema.
O que a cidade fez
- Assim que descobriu o vazamento de acesso, a polícia de Boston pediu à Flock que desligasse a função de busca nacional, como previa o contrato original
- Ao fim do piloto, em setembro de 2025, a cidade optou por não renovar o contrato com a empresa
- Boston já iniciou testes com concorrentes: um piloto com a Motorola começou em fevereiro, com 45 câmeras, e outro com a Axon, em junho, com 30 câmeras
O que isso significa para quem é monitorado
O episódio mostra que existir uma cláusula contratual proibindo compartilhamento de dados não garante, na prática, que o fornecedor vai cumpri-la — e que o controle real depende de auditoria contínua por parte do poder público, não apenas da promessa da empresa. Para o cidadão, o caso reforça que câmeras de leitura de placas guardam um histórico de deslocamento que pode circular além da cidade que autorizou a instalação, com pouca visibilidade sobre quem está de fato consultando esses dados.
Atualização (16/09, 15:43): ## Atualização: Congresso dos EUA mira rede de câmeras da Flock
Dois parlamentares dos EUA — o democrata Raja Krishnamoorthi e o republicano Michael Cloud — apresentaram nesta terça-feira (16) o "No FLOCK Act", projeto de lei bipartidário que restringe o uso das câmeras leitoras de placas da Flock Safety a cinco finalidades: pedágio, identificação de veículos roubados, localização de pessoas desaparecidas ou em risco, e investigação de veículos ligados a mandados ou crimes graves. Ficam de fora usos como estudos de tráfego, infrações de estacionamento e velocidade.
A ameaça para forçar adesão é financeira: o texto prevê que o Secretário de Transporte dos EUA retenha 10% da verba federal anual destinada a rodovias, estradas e pontes dos estados que não cumprirem as novas regras. O projeto foi apenas apresentado nesta data e ainda precisa passar por comissão e votação no Congresso.
A Flock Safety já havia reduzido em agosto o prazo padrão de retenção de dados de 30 para 7 dias e adicionado ferramentas de auditoria, na esteira da pressão que levou Boston a cancelar seu contrato com a empresa. O novo projeto de lei escala esse mesmo problema — uso indevido de dados de câmeras de leitura de placa — da esfera municipal para a política federal.