
Brasil e Turquia assinam memorando para ampliar negócios nucleares
ABDAN e a associação turca NIATR firmaram acordo de três anos para aproximar cadeias de suprimentos e abrir espaço a investimentos no setor nuclear. Por ora, o que existe é intenção declarada, não contratos fechados.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana
O Brasil opera hoje duas usinas nucleares — Angra 1 e Angra 2, em Angra dos Reis (RJ) —, somando cerca de 2 gigawatts de capacidade. Uma terceira, Angra 3, está em construção desde os anos 1980, foi retomada em 2022 e só deve entrar em operação em 2031, com 1.405 MW adicionais. É contra essa régua, ainda modesta perto de países como a própria Turquia, que entra o novo acordo assinado nesta semana entre o Brasil e o setor nuclear turco.
O que foi assinado, de fato
A ABDAN (Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares), entidade que reúne empresas e organizações do setor nuclear no país, formalizou um Memorando de Entendimento (MoU) com a Nuclear Industry Association of Türkiye (NIATR), sua equivalente turca. O documento tem validade de três anos e foi assinado no contexto de missões internacionais da ABDAN em fóruns na Europa neste mês de setembro.
Isso é fato consumado: existe assinatura, existe prazo de vigência (três anos) e existe estrutura de governança prevista — um grupo de coordenação que deve elaborar planos de ação conjuntos.
O que ainda é intenção
Tudo o que vem depois da assinatura, porém, é plano — não negócio fechado. O memorando prevê aproximar as cadeias de suprimentos dos dois países, estimular o comércio bilateral e abrir espaço para investimentos conjuntos, eventos setoriais e eventuais parcerias industriais e de medicina nuclear. Não há, nas informações divulgadas, valores de investimento, contratos específicos ou cronograma de projetos concretos.
Em nota, o presidente da ABDAN, Celso Cunha, resumiu o tom do acordo: "A parceria com a Turquia conecta nossos mercados e abre canais diretos para novos negócios, fortalecimento da cadeia produtiva e troca de inovação."
Por que a Turquia
A escolha do parceiro não é aleatória. A Turquia persegue meta de 20 GW de capacidade nuclear até 2050 — mais que o dobro da meta brasileira no horizonte do Plano Nacional de Energia (PNE 2055), que projeta 14 GW. O país já opera a usina de Akkuyu, em Mersin, com quatro reatores VVER-1200 somando cerca de 4,4 GW. Do lado brasileiro, o país já aderiu, em março deste ano, à Declaração para Triplicar a Energia Nuclear até 2050, subscrita por dezenas de países. O memorando com a NIATR é o mais recente de uma sequência de acordos internacionais da ABDAN.