tech & talk
Mercado11 de ago. de 2026, 13:20

Bumble abandona regra fundadora e deixa homens darem o primeiro passo

Após 12 anos exigindo que mulheres iniciassem a conversa, o Bumble libera qualquer pessoa para mandar a primeira mensagem — mudança anunciada em meio a queda de receita e usuários pagos.

Por Otávio Meireles · Repórter de Mercado

Compartilhar

O número que explica a virada

Receita em queda de 15,2% no segundo trimestre, para US$ 210,5 milhões, e base de assinantes pagantes encolhendo — no primeiro trimestre de 2026 caiu 21,1%, para 3,2 milhões de usuários, ante 4 milhões um ano antes. É nesse cenário que o Bumble decidiu enterrar a regra que o definiu desde o lançamento, em 2014: a obrigatoriedade de que só mulheres puderem enviar a primeira mensagem em matches heterossexuais. A partir de 11 de agosto, qualquer pessoa pode dar o primeiro passo, e a janela para responder a um match salta de 24 para 72 horas.

Da bandeira ao lastro

A regra de "mulher manda primeiro" não era só um recurso de produto — era o pilar de marca que separava o Bumble do Tinder e justificava um IPO em 2021. Só que a promessa de segurança e controle não segurou usuários: a ação da empresa acumula perda superior a 90% desde a estreia na bolsa, e a receita total de 2025 recuou cerca de 10%, para US$ 966 milhões. A fundadora e CEO Whitney Wolfe Herd, que retomou o comando da empresa, tenta agora reposicionar o discurso: "ser women-first nunca foi prescrever apenas uma forma de conectar. Era sobre desenhar uma experiência considerando as necessidades das mulheres", disse em comunicado.

A empresa cita pesquisa interna para justificar a virada: 66% das mulheres consultadas disseram preferir que os homens enviem a primeira mensagem, e 62% dos usuários — homens e mulheres — afirmam se sentir mais confiantes quando têm liberdade sobre como e quando a conversa começa. A mudança também traz um filtro que identifica mensagens de uma palavra só e incentiva aberturas mais elaboradas, tentativa de conter a fadiga de swipe que afasta usuários mais jovens.

Quem ganha e quem perde

O principal beneficiado é o próprio Bumble, que ganha fôlego para tentar estancar a fuga de assinantes num mercado em que o Tinder, do Match Group, segue líder de participação nos EUA. Para os investidores, o gesto sinaliza disposição de sacrificar identidade de marca em nome de crescimento — um risco calculado, já que abrir mão da promessa original pode alienar a base histórica de usuárias que veio para o app justamente pela regra que agora desaparece.

A mudança na regra de mensagens é só a ponta de um pacote maior: o Bumble já testa o assistente de inteligência artificial "Bee", lançado em março, e planeja abolir o swipe em mercados selecionados a partir do quarto trimestre de 2026. Se a aposta em IA e liberdade de mensagens não reverter a curva de assinantes pagantes, o próximo capítulo da história pode ser consolidação — com Match Group como comprador natural de uma concorrente enfraquecida.

bumbleapps de namorotindermatch groupwhitney wolfe herd
Compartilhar