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Ciência05 de out. de 2026, 09:42

Buraco quase do tamanho de Portugal se abre no gelo da Antártida

Uma área de 89.121 km² de oceano aberto surgiu em pleno inverno antártico de 2024, em fenômeno que cientistas classificam como sem precedentes para a época do ano. Estudo liderado por pesquisadores indianos aponta rios atmosféricos e ventos fortes como causas.

Por Letícia Prado · Repórter de Ciência

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Pra escala humana

Imagine recortar o território de Portugal do mapa — quase 92 mil km² — e abrir um buraco quase desse tamanho no meio do gelo, na estação mais fria do ano. Foi o que aconteceu na Baía de Breid, no leste da Antártida, onde uma área de oceano aberto chegou a 89.121 km² em pleno inverno de 2024.

O que está confirmado

Foto: reprodução/olhardigital.com.br

Segundo o estudo publicado na revista científica Geophysical Research Letters, da editora Wiley — uma das principais publicações internacionais de geociências —, a polínia (nome técnico para essas aberturas de água líquida cercadas de gelo marinho) atingiu sua extensão máxima em 4 de agosto de 2024. O fenômeno foi causado pela combinação de seis rios atmosféricos intensos — faixas estreitas na atmosfera que transportam grandes volumes de umidade — ocorridos entre julho e agosto daquele ano. Esses rios atmosféricos geraram transporte de umidade em direção aos polos acima de 600 kg por metro por segundo, considerado extremo (acima do percentil 99 histórico), além de ventos de norte, radiação de onda longa e ondas de calor atmosféricas com aquecimento anômalo de cerca de 19°C.

A pesquisa foi liderada pelo cientista da Terra Jeebanjyoti Swain, à frente de uma equipe de pesquisadores indianos. O trabalho recebeu o DOI 10.1029/2026GL122580.

O que é hipótese ou projeção

Foto: reprodução/sciencealert.com

Os autores apontam que o processo também envolveu a chamada sucção de Ekman — um mecanismo de movimentação oceânica causado pelo vento, que ajuda a trazer águas profundas circumpolares mais quentes para a superfície, corroendo o gelo por baixo. Essa combinação de fatores é descrita como uma hipótese explicativa reforçada pelos dados observados, não uma certeza absoluta sobre todos os mecanismos envolvidos.

Os cientistas também projetam que eventos como esse devem se tornar mais frequentes à medida que a mudança climática intensifica rios atmosféricos e ondas de calor, tanto no ar quanto no oceano Austral — uma tendência apontada pelo estudo, mas que depende de cenários climáticos futuros.

Por que isso chama atenção

Os próprios pesquisadores destacam que "um fenômeno dessa dimensão não havia sido observado naquela época do ano", o que torna o caso da Baía de Breid um marco em termos sazonais. Vale lembrar que, em junho de 2026, outro evento parecido — desta vez no Mar de Bellingshausen, a oeste da Península Antártica — já havia produzido uma abertura comparável ao tamanho da França, reforçando que esses buracos gigantes no gelo polar, raros mas não inéditos, podem estar se tornando menos excepcionais do que pareciam décadas atrás.

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