
Buracos negros 'andarilhos' guardam a história secreta das galáxias, diz estudo
Simulação cosmológica da Universidade Yale mostra que buracos negros deslocados do centro das galáxias funcionam como arquivistas do passado galáctico, preservando pistas sobre sua própria origem.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: enquanto a civilização humana existe há alguns milhares de anos, a simulação usada no estudo reconstrói quase 12,6 bilhões de anos de história cósmica
Um novo estudo publicado na revista científica The Astrophysical Journal Letters em setembro de 2026 usou uma simulação cosmológica chamada ASTRID para acompanhar, ao longo de bilhões de anos, o comportamento de buracos negros supermassivos dentro de suas galáxias — e chegou a uma conclusão que pode mudar a forma como cientistas leem o passado dessas estruturas. A pesquisa foi conduzida por Emma Jane Weller e Priyamvada Natarajan, da Universidade Yale, uma das principais universidades de pesquisa dos Estados Unidos, em parceria com Colin J. Burke, da University of North Texas, instituição pública de ensino superior americana.
O que é confirmado
Foto: reprodução/universetoday.com
A maioria dos buracos negros supermassivos fica ancorada no centro de sua galáxia hospedeira. Mas a simulação ASTRID — que reproduz a evolução de matéria escura, gás, estrelas e buracos negros ao longo de cerca de 12,6 bilhões de anos, sem fixar artificialmente esses objetos no centro galáctico — mostrou que uma parcela deles se desloca para longe, tornando-se o que os pesquisadores chamam de buracos negros "andarilhos". Esse comportamento foi mais pronunciado em galáxias de baixa massa, onde a força gravitacional que os manteria presos ao centro é mais fraca, e apareceu com mais frequência em galáxias ainda ativas na formação de novas estrelas.
Segundo Natarajan, em declaração à universidade, "os buracos negros parecem lembrar mais do que apenas as circunstâncias de seu nascimento" — ou seja, a posição atual de um buraco negro, centrado ou andarilho, carrega informação sobre tudo o que aconteceu com a galáxia ao longo de sua história. A pesquisadora descreve esses objetos como "arquivistas cósmicos notáveis".
O que ainda é hipótese
A equipe sugere que comparar buracos negros centrados e andarilhos dentro da mesma galáxia pode ajudar a resolver um debate antigo da astrofísica: se os primeiros buracos negros do universo nasceram do colapso de estrelas massivas ou diretamente do colapso de nuvens de gás primordial. Mas essa separação de "duas histórias", nas palavras da própria Natarajan, ainda depende de observações reais que confirmem o que a simulação prevê — por ora, trata-se de um modelo computacional, não de buracos negros andarilhos efetivamente observados e catalogados ao redor de uma galáxia específica.