
Buracos negros do Universo jovem podem ser bem menores do que se pensava
Novo estudo reanalisa 14 buracos negros supermassivos vistos pelo James Webb e sugere massas de 1 a 10 milhões de sóis, e não as dezenas ou centenas de milhões estimadas antes.
Por Letícia Prado · Repórter de Ciência
Pra escala humana: o buraco negro no centro da nossa Via Láctea tem cerca de 4 milhões de massas solares. Boa parte dos buracos negros supermassivos que o telescópio espacial James Webb encontrou no Universo jovem parecia superar isso em muito — dezenas ou até centenas de milhões de massas solares, num Universo com menos de 1 bilhão de anos de idade. Um novo estudo sugere que essa conta pode estar errada.
O que está confirmado
Uma equipe liderada por Alessandro Trinca, do Observatório Astronômico de Roma (ligado ao Instituto Nacional de Astrofísica da Itália, o INAF), reanalisou 14 buracos negros supermassivos identificados pelo James Webb que têm uma característica em comum: não emitem raios X detectáveis, algo incomum para objetos supostamente tão massivos e ativos. O trabalho foi publicado em junho de 2026 na revista científica Astronomy & Astrophysics.
Segundo Trinca, em declaração citada pelo Olhar Digital, a nova estimativa aponta para "massas de aproximadamente um milhão a dez milhões de massas solares, em comparação com as dezenas ou centenas de milhões" calculadas anteriormente. Ou seja: objetos que pareciam gigantes cósmicos fora de escala podem estar muito mais próximos do buraco negro que habita o centro da nossa própria galáxia.
A hipótese por trás da revisão
Aqui entra a parte que ainda é modelo, não certeza absoluta. A equipe testou um mecanismo chamado acréscimo super-Eddington — quando um buraco negro engole matéria mais rápido do que o limite teórico de Eddington permitiria em condições normais. Esse processo, segundo o estudo, distorce o espectro de luz emitido e reduz a emissão de raios X, o que faz um buraco negro relativamente pequeno parecer, nas medições tradicionais, muito mais massivo do que realmente é.
Para cada um dos 14 objetos da amostra, os pesquisadores compararam dois cenários possíveis: um buraco negro gigante mas quase adormecido, alimentando-se de pouquíssimo gás, ou um buraco negro menor devorando matéria em ritmo extremo. Segundo o estudo, quase todos os casos favoreceram estatisticamente a segunda opção — a do objeto menor e voraz.
Por que isso importa
A distinção não é só estatística: buracos negros "nascidos grandes" desafiam os modelos atuais de formação cósmica, enquanto buracos negros menores que cresceram rápido demais são mais fáceis de explicar com a física já conhecida. Os próprios autores fazem uma ressalva importante: os resultados assumem que não há gás extremamente denso o suficiente para absorver a emissão de raios X escondendo, por outro motivo, esses buracos negros. Novas observações do Observatório de Raios X Chandra, da Nasa, devem ajudar a testar qual dos dois cenários realmente se sustenta.