
BYD no monotrilho de SP: a bateria de R$ 5,8 bi que promete rodar sem fio
A Linha 17-Ouro estreou no Brasil a tecnologia SkyRail da BYD, com trens sem condutor movidos a bateria. Mas quem paga a conta e quem fiscaliza esse contrato de bilhões?
Por Camila Furtado · Repórter de Smart Cities
Pela primeira vez fora da China, um monotrilho inteiro roda com a tecnologia SkyRail — e isso está acontecendo debaixo do nosso nariz, entre o Aeroporto de Congonhas e o Morumbi, na zona sul de São Paulo. A BYD, montadora chinesa já conhecida por seus carros elétricos, também é fornecedora da tecnologia que move os trens da Linha 17-Ouro. E não, isso não é só um detalhe técnico: é a espinha dorsal de um sistema que promete andar sem fiação aérea nem terceiro trilho.
O que a BYD colocou nos trilhos
O sistema se chama SkyRail: trens suspensos sobre uma única viga elevada, com baterias Blade — a mesma tecnologia usada nos carros e ônibus da marca — embarcadas em cada composição. Na prática, cada trem de cinco carros, com capacidade para 616 passageiros e cerca de 54 toneladas, consegue rodar por até 8 km (em testes, chegaram a 13 km) só com a energia armazenada, recarregada automaticamente durante a operação e com a frenagem regenerativa. São 14 trens em operação, com sinalização CBTC e automação total (sem condutor), rumo à classificação GoA 4 — o nível mais alto de automação ferroviária que existe.
Foto: reprodução/cnnbrasil.com.br
Para quem pega a linha todo dia, a pergunta é direta: o trem anda sem condutor e sem energia constante da rede. Isso é mais seguro ou é mais um ponto de falha que a gente só vai descobrir no primeiro apagão?
Quanto custou e quem fiscaliza
Foto: reprodução/metrocptm.com.br
Aqui é onde a conversa fica interessante. O projeto completo da Linha 17-Ouro — que tem 7,7 km e oito estações, incluindo o ramal para Congonhas — soma R$ 5,8 bilhões. A operação é concedida à ViaMobilidade, consórcio responsável também pela Linha 5-Lilás, em contrato de 20 anos firmado em 2018, com outorga fixa de R$ 980 milhões mais 0,5% da receita bruta destinada, entre outras coisas, à fiscalização.
E quem fiscaliza a fiscalização? O Metrô de SP mantém contratos específicos para validar os projetos executivos: o Consórcio PSH-Ouro cuida da sinalização, controle centralizado e material rodante (R$ 22,4 milhões), enquanto o Consórcio CAT-Linha 17 valida os sistemas complementares (R$ 24,7 milhões) — ambos com aditivos recentes que reduziram o valor em quase R$ 425 mil. São números públicos, mas que exigem garimpo: não aparecem resumidos em lugar nenhum para o passageiro comum.
Comparando com quem já faz isso
Fora da China — onde o SkyRail já opera em cidades como Yinchuan e Bengbu —, São Paulo é a estreia mundial da tecnologia. Isso é motivo de orgulho ou de ineditismo arriscado? Outras capitais que apostaram em monotrilhos automatizados, como o próprio histórico das Linhas 15 e 17 de SP com a Scomi/CAF, mostram que a promessa de automação total costuma vir acompanhada de anos de atraso. Hoje a operação ainda é parcial, de segunda a sexta, das 10h às 15h, com plano de operação plena anunciado para outubro. Até lá, vale perguntar: quem garante que o cronograma anunciado será cumprido — e quem é responsabilizado se não for?