
Cabos submarinos entram em zona de perigo geopolítica, diz livro
Levantamento usado no livro 'Undersea War' mostra que a infraestrutura que carrega quase todo o tráfego global de internet está cada vez mais exposta a sabotagem. Autoridades já miram navios suspeitos em casos recentes no mar Báltico.
Por Denise Sampaio · Repórter de Segurança
O que aconteceu
A rede de cabos submarinos que sustenta praticamente toda a internet mundial está mais vulnerável do que nunca, segundo reportagem da Ars Technica baseada no livro "Undersea War" ("Guerra Submarina"), da pesquisadora Elisabeth Braw, membro sênior do Atlantic Council — think tank americano de política externa — à frente de uma iniciativa sobre ameaças à ordem marítima global. Mesmo com o crescimento de redes de satélite como a Starlink, da SpaceX, a maior parte do tráfego de dados do planeta ainda depende de cabos de fibra óptica no fundo do oceano.
O problema não é novo: entre 150 e 200 cabos submarinos sofrem danos por ano em todo o mundo, a maioria consertada rapidamente. Cerca de 60% desses incidentes decorrem de causas banais, como erro humano em operações de pesca e navegação. O que mudou, segundo a autora, foi o aumento de casos suspeitos que remetem a sabotagem deliberada, num contexto de tensões entre potências e conflitos abertos na Europa e no Oriente Médio.
Quem é afetado
O caso mais citado como exemplo dessa escalada é o do mar Báltico: 11 cabos de energia e telecomunicações foram danificados em 15 meses, entre outubro de 2023 e janeiro de 2025, afetando países como Finlândia, Estônia, Letônia, Suécia, Alemanha e Lituânia. Entre os episódios, está o rompimento do cabo de telecomunicações C-Lion1, entre Finlândia e Alemanha, e de um cabo elétrico entre Letônia e a ilha sueca de Gotland.
Em pelo menos dois casos, autoridades apontaram suspeita de ligação com a chamada "frota sombra" russa — embarcações que driblam sanções internacionais. O navio-tanque Eagle S foi apontado pela polícia finlandesa como suspeito de arrastar a âncora deliberadamente por uma distância incomum até cortar cabos em dezembro; outro navio, o Vezhen, de bandeira maltesa, foi detido pela Suécia, mas sua operadora búlgara alegou dano acidental.
O que está sendo feito
A resposta mais concreta até agora partiu da Otan, que lançou em janeiro de 2025 a missão "Baltic Sentry" ("Sentinela do Báltico"), reunindo aviões de patrulha marítima, navios de guerra e drones navais para reforçar a vigilância na região. Governos também passaram a investigar e processar tripulações de navios suspeitos de dano proposital, algo raro até poucos anos atrás.
Pontos-chave do cenário descrito pelas fontes:
- A infraestrutura submarina é, por natureza, difícil de vigiar e de atribuir responsabilidade em caso de dano;
- O aumento de incidentes suspeitos coincide com o agravamento de tensões geopolíticas globais, não com uma única causa isolada;
- A Otan ampliou presença naval e tecnológica no Báltico após a sequência de cortes de cabo;
- Especialistas defendem mais redundância de rotas e cabos reserva como forma de reduzir o impacto de rupturas, deliberadas ou não.
Para o público em geral, o recado de Braw não é de pânico, mas de atenção: a internet moderna depende de uma infraestrutura física concentrada e pouco protegida, e fortalecer sua resiliência tende a ganhar peso como prioridade estratégica nos próximos anos.